Guiné-Bissau vai votar pela continuidade ou pela promessa de ruptura

A Guiné-Bissau prepara-se para um dos escrutínios mais determinantes da sua história recente. No domingo, 23 de novembro, mais de 966 mil eleitores regressam às urnas num ambiente de polarização crescente, desgaste institucional e um desejo profundo de mudança. Doze candidatos foram validados pelo Tribunal Supremo para disputar a Presidência, mas a corrida resume-se, de forma clara, ao confronto entre Umaro Sissoco Embaló e Fernando Dias, figuras que simbolizam caminhos distintos para o país.

Umaro Sissoco Embaló, sob fogo crítico

Aos 53 anos, general na reserva e líder de facto da Plataforma Republicana Nô Kumpu Guiné, Umaro Sissoco Embaló tenta renovar o mandato e tornar-se no segundo Presidente guineense a cumprir integralmente cinco anos no poder. A sua ascensão política ganhou força em 2016, quando assumiu o cargo de primeiro-ministro. Três anos depois venceu as eleições presidenciais, tomou posse sob contestação e só meses mais tarde viu o Supremo Tribunal de Justiça confirmar formalmente a vitória.

O mandato de Umaro Sissoco Embaló combinou centralização do poder, obras de grande visibilidade e uma crescente contestação política. O Presidente governou grande parte do período com governos de iniciativa presidencial, apoiando-se em interpretações amplas da Constituição que marginalizaram maiorias parlamentares e agravaram a já frágil arquitetura institucional do país.

Organizações cívicas denunciaram repressão de protestos, intimidação política e retrocessos nas liberdades fundamentais, enquanto a prometida luta contra a corrupção pouco avançou. Apesar disso, Embaló destacou-se pela aposta em intervenções urbanas com a requalificação de avenidas, iluminação e arruamentos em Bissau, bem como obras de modernização no Aeroporto Osvaldo Vieira, iniciativas apresentadas como símbolo de renovação nacional, mas criticadas pela ausência de um plano estruturante de longo prazo.

No plano externo, investiu fortemente na diplomacia e procurou afirmar a Guiné-Bissau na cena internacional, mas internamente o país permaneceu preso a ciclos de instabilidade, sem reformas sólidas na justiça, administração pública ou Forças Armadas. O mandato termina como um período de avanços visuais, mas com pouca consolidação institucional e uma estabilidade ainda frágil.

Fernando Dias, o meteorito

Do outro lado surge Fernando Dias, jurista de 47 anos, inicialmente candidato independente apoiado pela coligação API – Cabas Garandi e posteriormente adotado pelo PAIGC, que, após grande hesitação, colocou a sua máquina eleitoral ao seu serviço. Ex-dirigente do PRS, Dias passou por cargos de relevo no Estado. Foi vice-presidente do Parlamento, diretor-geral do Conselho Nacional de Carregadores e ministro da Administração Territorial em 2020, numa nomeação feita por Embaló. A relação entre ambos deteriorou-se quando Dias recusou integrar o governo presidencial formado após a queda do Parlamento em 2022.

O jurista apresenta-se como o rosto de uma presidência moderadora, defensora da separação de poderes, da reconciliação nacional e da restauração da normalidade institucional. Apela ao fim das tensões permanentes entre órgãos de soberania e defende que a Guiné-Bissau só poderá aspirar à estabilidade se reconstruir a confiança interna e se fortalecer um Estado que funcione “para todos e não para círculos de poder”.

Sociedade civil “contra a ditadura”

Enquanto os candidatos percorrem o país, a sociedade civil eleva o tom. Organizações como a Frente Popular descrevem os últimos seis anos como um período de “autoritarismo, desordem institucional, medo e impunidade”, apelando a um voto “contra a ditadura e a mentira”. Na sua carta aberta, a organização afirma que estas eleições são um “julgamento moral da Nação” e insta as Forças Armadas a manterem-se rigorosamente dentro dos limites constitucionais, evitando qualquer ingerência que possa comprometer a legitimidade do processo.

Os outros candidatos

Embora o duelo entre Embaló e Dias domine a campanha, a lista presidencial inclui mais dez candidatos que ajudam a compor o mosaico político guineense.

Entre eles está o ex-Presidente José Mário Vaz (Jomav), que procura regressar ao cargo apoiado pela Convergência Nacional para a Liberdade e Desenvolvimento, apostando na narrativa da experiência mas enfrentando o desgaste do seu mandato anterior.

O mandato de José Mário Vaz (2014-2019) tornou-se sinónimo de paralisia política e crise institucional prolongada. Embora tenha iniciado a Presidência com um discurso conciliador, rapidamente se envolveu em conflitos internos no PAIGC e em disputas com o Governo, desencadeando uma sucessão de crises que bloquearam a ação do Estado e impediram reformas essenciais.

Jomav governou grande parte do período apoiado em alianças voláteis e decisões unilaterais, resistindo frequentemente a soluções negociadas propostas pela CEDEAO. A incapacidade de construir consensos transformou-o numa figura mais associada ao bloqueio do que à mediação institucional. Apesar das promessas de moralização da vida pública, o seu mandato não produziu avanços significativos na administração, na economia ou nos serviços sociais.

O legado de José Mário Vaz permanece marcado por instabilidade constante, desgaste das instituições e uma crescente perda de confiança do eleitorado num sistema político incapaz de convergir para soluções estáveis.

Marca também presença na eleições Mamadú Iaia Djaló, líder da Aliança para a República, que insiste num discurso moralizador e reformista para seduzir sobretudo o eleitorado urbano cansado das elites tradicionais.

Herculano Armando Bequinsa, do Partido da Renovação Democrática, surge com uma agenda técnica centrada na modernização administrativa, enquanto João de Deus Mendes, do Partido dos Trabalhadores, dá prioridade às reivindicações sociais, aos direitos laborais e ao reforço dos serviços básicos. A histórica FLING volta ao boletim com o seu candidato Honorio Augusto Lopes, evocando a memória da luta de libertação e reivindicando uma “segunda independência” que responda às frustrações atuais. Também João Bernardo Vieira, sobrinho do antigo Presidente Nino Vieira, após o seu partido, o PAIGC, recusar o apoio, concorre com o suporte do PALDG, mantém um discurso centrado na defesa da reconciliação nacional e da necessidade da regeneração política.

Junta-se ainda Gabriel Fernando Indi, do Partido Unido Social Democrata, propondo uma social-democracia moderada centrada na saúde e educação; Mário da Silva Júnior, da Organização Cívica para a Democracia – Esperança Renovada, que tenta captar a sociedade civil organizada com a promessa de rutura com o sistema; e Baciro Djá, ex-primeiro-ministro, agora candidato da Frente Patriótica para a Salvação Nacional, que reaparece com um discurso de ordem e segurança, embora enfrente uma significativa fadiga de imagem. Por fim, o independente Sigá Baptista mantém o nome no boletim, apesar de ter retirado a candidatura e declarado apoio a Fernando Dias, convertendo os seus apoiantes potenciais em capital político para o adversário de Embaló.

RN

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subescreve a Newsletter

Artigos Relacionados

Guiné-Bissau: PAIGC denuncia sequestro de DSP e enfrenta contestação interna

O Partido Africano da Independência da Guiné e...

0

Guiné-Bissau: JBV acusa Presidente são-tomense de instigar golpe institucional

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo de...

0

Guiné-Bissau: Diretoria de Dias rejeita transição e exige reconhecimento resultados eleitorais

A Diretoria Nacional de Campanha de Fernando Dias...

0