A Guiné-Bissau volta a viver dias de turbulência política. Num país marcado historicamente por sucessivos golpes de Estado, crises institucionais e ciclos de instabilidade, o episódio mais recente — classificado por uns como golpe militar e por outros como uma encenação cuidadosamente montada — reacendeu o debate sobre a legitimidade, o poder e a vontade real do povo guineense.

Nesta entrevista, falamos com uma voz ativa da diáspora guineense, Tércio Tete, jurista e fundador do projeto de Educação política “Educar Mentes Para Democracia”, um projeto que através do ativismo critico, incentiva à cidadania de participação e construção duma sociedade politicamente sustentável na Guiné-Bissau.
Um golpe ou uma encenação? As contradições que alimentam a crise
Para Tércio Tete, o episódio de golpe de Estado apresenta demasiadas contradições para ser interpretado como um golpe militar convencional. A primeira pergunta que coloca é simples: “Como é que se anuncia um golpe quando o anúncio não parte do líder do golpe mas de quem diz estar a ser golpeado?”
Segundo relata, o então Presidente Sissoco Embaló teve acesso ao telemóvel e anunciou publicamente que estava a ser alvo de um golpe. No entendimento do entrevistado, esta cronologia levanta sérias dúvidas: se havia um golpe real, como é que o suposto visado se manteve no centro do palco, com controlo de canais de comunicação?
“Desde a tomada de posse que este Presidente teve uma atitude hostil para os opositores e utiliza a figura de golpe de Estado como chantagem”, refere. “Ele já tentou isso de várias formas e sempre em colaboração com os militares”.
A tese que partilha é contundente: o episódio terá sido uma encenação política destinada a evitar que os resultados eleitorais fossem apurados, sabendo que o Presidente teria perdido a eleição à primeira volta. “Se o golpe fosse real”, afirma, “como é que o Presidente, que alega vitória na primeira volta com 55%, não garantiu imediatamente a contagem dos votos depois de ‘controlar’ a situação? Já enfrentou crises piores sem nunca abandonar o cargo.”
O argumento repete-se ao longo de toda a entrevista: não se tratou de uma tentativa real de tomada de poder, mas sim de uma manobra calculada para travar o processo eleitoral, apoiada na cumplicidade de elementos-chave das forças armadas e de figuras próximas do círculo presidencial. “Objetivamente isto foi uma inventona”.
As peças do xadrez político: quem são os novos líderes?
A tomada de posse como Presidente da República do general Inta-A e como primeiro-ministro Ilídio Té também é alvo de crítica por parte de Tércio Tete: “Não há neutralidade nenhuma. Quem assume o poder depois de um golpe é sempre alguém que participou na preparação desse golpe.”
Ambos são descritos como figuras próximas do Presidente deposto, Sissoco Embaló, com percursos marcados pela colaboração com o próprio tanto politicamente como financeiramente. Ilídio Té é apontado como parte fundamental da máquina económica que sustentou o regime anterior, incluindo, segundo o entrevistado, “o financiamento de práticas de tortura, raptos e espancamentos”.
Na sua leitura, estas nomeações não só confirmam a ligação ao círculo de Embaló como reforçam a tese de que a mudança de poder serviu sobretudo para prolongar o controlo político e evitar a divulgação dos resultados eleitorais. Esta ideia é também apoiada após a divulgação dos nomes para o novo governo, tendo em conta que vários pertencem ao círculo próximo do Presidente deposto.
Oposição corajosa, povo mobilizado: a luta pela verdade eleitoral
“Na Guiné-Bissau, a oposição tem sempre força nas ruas, o que falta é coragem para levar a que essa mobilização aconteça também pelos líderes políticos para enfrentar o regime”, afirma.
A perseguição a líderes opositores, as ameaças e a presença de militares leais ao regime tornam qualquer confrontação um risco elevado. Mas o entrevistado insiste que regimes autoritários do passado foram enfrentados em circunstâncias igualmente perigosas.
Para ele, o grande bloqueio à mobilização popular não vem do povo, mas dos líderes políticos que apelam constantemente à calma: “O povo está pronto. Mas a oposição às vezes trava a mobilização. Estão sempre a pedir calma. E essa calma é que adia a verdade eleitoral.”
Para Tércio Tete, os resultados eleitorais só serão divulgados se houver esta mobilização coletiva entre o povo e a oposição, que criem uma verdadeira resistência no país: “não vamos ter verdade eleitoral se eles se sentarem no sofá e cruzarem os braços”.
O ativista apela a “um plano nacional de mobilização, de manifestação, de repúdio, de contestação, uma luta acirrada” pela verdade eleitoral.
Quem deve liderar a resistência?
A questão é clara: quem deve assumir a liderança dessa resistência nacional destinada a restaurar a legalidade democrática?
A resposta também é clara: Fernando Dias da Costa, candidato apontado como vencedor das eleições. É descrito como o líder natural do processo, por ter “legitimidade conquistada nas urnas” e pleno direito civil e político para assumir a governação.
Domingos Simões Pereira, figura histórica, é reconhecido como essencial no apoio político e na mobilização popular, mas o Tete entende que o momento pertence a Fernando Dias, por ter sido “o vencedor forjado”, cujos resultados foram travados. No entanto, esclarece também que toda a oposição deve fazer a sua parte e apoiar a mudança do regime. “Há capacidade de mobilização, só falta a coragem desta oposição política. Tem de haver coragem! O medo vai sempre existir, é a arma dos cobardes, mas tem de haver coragem.”
O silêncio internacional e o desencanto com a CEDEAO e a CPLP
Ao nível internacional, o ativista político refere que a suspensão da Guiné-Bissau pela CEDEAO não irá ter impacto significativo no país. Para o entrevistado, as organizações internacionais têm sido participantes pela omissão e os guineenses “não deixam a sua esperança na comunidade internacional”.
“A verdade é que a CPLP, a União Africana e até a CEDEAO foram inúmeras vezes cúmplices e contraditórias. Relembro que a CPLP tem como presidente em exercício… o próprio Sissoco.”
A crítica é dura: considera que estas entidades preferem soluções de compromisso, “governos de consenso”, que acabam por normalizar irregularidades e evitar confrontos diretos com regimes instalados.
Segundo afirma, “nenhuma organização internacional salvará a Guiné-Bissau, o que é preciso é uma mobilização nacional sólida”.
Uma juventude esclarecida e uma diáspora influente

Apesar da crise, há sinais positivos. O entrevistado destaca que a situação atual trouxe um ganho: o aumento da consciência política do povo, especialmente dos jovens. Salienta o papel das redes sociais que fez com que o debate político se tornasse mais vivo, mais informado e mais participativo.
“Nunca se viu um povo tão mobilizado na Guiné-Bissau. Tiraram um ditador na primeira volta. Isso nunca tinha acontecido.”
Teté refere com entusiasmo que diáspora desempenha um papel crucial, suprimindo as lacunas do sistema educativo e informando os cidadãos dentro do país, descrevendo o seu próprio envolvimento: desde a produção de conteúdos políticos até ao incentivo à criação de cartazes de vítimas do regime para os comícios.
O resultado? Uma população jovem que já não aceita passivamente o que lhe é imposto e que exige transparência, justiça e mudança.
O futuro: entre a possibilidade de uma revolta popular e a inércia da oposição
Tércio Tete não acredita no regresso de Embaló a curto prazo, descrevendo-o como alguém que fugiu para evitar responsabilidades. No entanto, acredita que o regime instalado se manterá enquanto a oposição não assumir um papel ativo na mobilização.
O povo, garante, “está revoltado e disposto a ir para as ruas”, mas falta a orientação das lideranças. “A revolução nunca é feita pelo povo sozinho. O povo revolta-se, mas precisa de orientação. E neste momento, quem trava o avanço é a própria oposição.”
3 Comments
O autor/factor desse acto nojento ficou atrás de cortinas e induzindo os militares famintos ao erro.
Sim, considero esse acto um golpe, golpe contra Fernando Dias, golpe contra Domingos Simões Pereira e todo o povo guineense que votou pela mudança do regime. Qualquer cidadão minimamente consciente sabe que Horta é simples farsa e que o verdadeiro autor/factor dessa barbaridade é o Umaro Sissoco Embalo que perdeu eleições duma forma vergonha tendo em conta raptos, espancamentos, torturas…
Muito obrigado Teté
Eu gostaria muito de fazer parte deste city