Guiné-Bissau: Reconciliação fracassa no MADEM abre caminho a liderança de Sissoco Embaló

O processo de reconciliação entre os militantes do Movimento para Alternância Democrática (MADEM-G15) revelou-se um autêntico fiasco. A primeira tentativa de aproximar as diferentes correntes terminou numa deceção, obrigando o Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló, a intervir e a repor a situação no ponto de partida. Durante a sua intervenção, uma das hipóteses admitidas foi a assunção da liderança do partido pelo próprio Chefe de Estado.

Para além dessa possibilidade, discutida numa reunião na Presidência que juntou representantes das várias alas, esteve igualmente sobre a mesa a dissolução do MADEM-G15, com vista à criação de uma nova força política sob a designação Partido Republicano.

Fontes internas garantiram que o processo de reconciliação, entretanto abortado, até começou de forma auspiciosa. Cada uma das alas constituiu uma Comissão de 11 dirigentes e, por consenso, foi escolhida uma figura moderadora para orientar os debates. As primeiras reuniões tinham como objetivo a elaboração de uma proposta de entendimento, que seria submetida a análise antes de um encontro final.

A proposta chegou a ser redigida e entregue a uma das partes. Contudo, quando tudo parecia encaminhar-se para uma solução positiva, surgiu o retrocesso. Na tarde de 10 de setembro, uma reunião convocada na Presidência da República juntou as alas do partido para apreciarem o documento e apresentarem as suas observações.

Durante esse encontro, Umaro Sissoco Embaló terá manifestado forte desagrado, criticando o facto de a proposta não contemplar os seus interesses e denunciando alegadas incongruências no texto. Totalmente contrário ao documento elaborado, o Chefe de Estado decidiu pôr termo ao processo de reconciliação.

De acordo com fontes partidárias, o passo seguinte foi a criação de uma comissão chefiada pelo ministro Marciano Silva Barbeiro e por Abel da Silva. A estes caberá a responsabilidade de apresentar uma lista de candidatos a deputados do MADEM-G15, no quadro da coligação Plataforma Republicana, para as eleições gerais de 23 de novembro.

“É importante dizer que ele ignorou por completo a proposta, considerando-a desnecessária. Ordenou os dirigentes a regressarem às posições anteriores na hierarquia e insinuou assumir ele mesmo a coordenação do partido”, revelou um dos presentes, referindo-se a Sissoco Embaló.

Testemunhas do encontro relatam ainda que o Presidente tranquilizou os dirigentes do MADEM, garantindo que não deveriam preocupar-se com o futuro da organização. “Após as eleições, todas as formações políticas serão extintas”, inclusivamente o MADEM, “e surgirá uma nova, denominada Partido Republicana”, terá dito o Chefe de Estado.

Sissoco Embaló fator de rutura

Fontes próximas ao processo referiram que a intervenção de Embaló acabou por ser entendida como um recurso para impor disciplina num quadro de divergências insanáveis. Na prática, não existia entendimento entre as alas, já que as propostas apresentadas incluíam sempre alternativas contraditórias.

Também, alguns dirigentes “praticamente boicotaram as reuniões convocadas”, comprometendo o alcance de consensos. Perante tal impasse, foi elaborada uma proposta considerada possível, mas que nunca chegou a ser discutida em profundidade entre as correntes internas e acabou por ser rejeitada de forma categórica pelo Presidente da República.

No rescaldo de todo o impasse, revela-se que o processo de reconciliação está paralisado. Antes mesmo das lideranças das diferentes alas se pronunciarem, a decisão foi assumida unilateralmente pelo Chefe de Estado.

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