Guiné-Bissau: A Passagem de poder de Embaló

Quando na manhã de 26 de novembro, N´Pabi Cabi, Presidente da Comissão Nacional das Eleições, reuniu com Umaro Sissoko Embaló para lhe apresentar os resultados apurados, estava longe de imaginar a velocidade com que os acontecimentos se iriam desenrolar nos dias seguintes.

N´Pabi Cabi anunciou a Embaló que as eleições presidenciais iriam para uma segunda volta depois de nem Fernando Dias nem o próprio Embaló terem conseguido obter a maioria à primeira volta.

Nesse momento, Embaló apresentou a Cabi os resultados que o Presidente da CNE deveria ler ao país no dia seguinte, dia oficial para a apresentação dos resultados eleitorais, e nos quais o Presidente da República seria apresentado reeleito logo à primeira volta, a larga distância de Fernando Dias. Cabi, nomeado para o lugar pelo próprio Embaló, recusou a ordem, devido ao risco de que, tal situação, pudesse conduzir o país a uma guerra civil.

A campanha eleitoral já tinha decorrido de forma tensa. A decisão dos tribunais em impedir o PAIGC e Domingos Simões Pereira, os principais opositores, de participarem nas eleições teve como efeito juntar ao redor do candidato Fernando Dias toda a oposição a Embaló. Polarizadas entre Dias e Embaló, as presidenciais tornaram-se num verdadeiro referendo à continuação deste último à frente dos destinos da Guiné-Bissau.

Para o Presidente da República, a recusa do Presidente da CNE, colocava um problema suplementar: como é que Umaro Sissoko Embaló, o estadista africano que se gaba de reunir com Trump, Putin, Marcelo ou Macron, que colocou a Guiné-Bissau no mapa das relações mundiais, como é que este homem iria enfrentar os seus pares depois de sofrer a suprema humilhação feita pelo Povo da Guiné-Bissau? Não só Embaló não vencia à primeira volta, como o candidato da oposição era ainda o mais votado. Rápido de raciocínio, Embaló compreendeu que Dias, obtendo o apoio de algum dos outros candidatos derrotados, estava em vias de se tornar o próximo Presidente da República e ser o sucessor do próprio Embaló.

Sissoko Embaló tinha já ameaçado no passado que preferia passar o poder aos militares a deixar a Guiné-Bissau voltar às mãos da Oposição. E os acontecimentos de dia 26 de novembro mostram o quanto esta ameaça foi bem preparada. Ainda na manhã de 26 de novembro, Embaló deu ordens para colocar em marcha o plano de passagem de poder para as mãos militares, simulando uma ação militar que preservasse a sua imagem de estadista e não o impedisse de concorrer a um novo processo eleitoral futuro.

Em poucas horas, os militares invadiram a CNE e destruíram as actas eleitorais, ocuparam os principais eixos rodoviários de Bissau, a Televisão e a Rádio Pública, e anunciaram a detenção do próprio Embaló e dos membros do Governo. Tudo enquanto se continuavam a ouvir vários disparos na capital guineense, todos para o ar e sem registos de mortos ou feridos. Pelo caminho, detiveram Domingos Simões Pereira e Fernando Dias, o qual conseguiu escapar.

Embaló foi transportado para o Estado Maior de Amura, onde, mesmo estando oficialmente detido, coordenou todos os passos do Golpe. Com acesso ao telemóvel, descansou amigos e aliados, e foi o próprio a informar os jornalistas de que os militares o tinham deposto e liderado (mais) um Golpe de Estado na Guiné-Bissau.

A sucessão e a velocidade dos acontecimentos acabaram por acelerar a consumação da passagem de poder de Embaló para os militares. No dia seguinte ao Golpe, o seu fiel militar Horta Inta-A foi nomeado Presidente da República da Transição e no dia seguinte, o seu fiel Ilídio Tê foi nomeado Primeiro Ministro de Transição. Com esta passagem de poder para as autoridades de transição, Embaló tentava apagar a humilhação que lhe tinha sido feita pela sua derrota à primeira volta.

Embaló, o presidente “auto-deposto”, viajou na noite de 27 de novembro para o Senegal. Poucos dias depois, seguiu para o Congo e depois para Marrocos, onde ainda se encontra, mantendo-se em absoluto silêncio público, numa estratégia de se resguardar para as próximas eleições após o período de transição.

Em Bissau, Embaló deixa Horta Inta-A e Ilídio Tê a comandar oficialmente os destinos do país, mas sempre atentos às chamadas telefónicas com origem em Marrocos, as quais transmitem as verdadeiras orientações para cumprimento imediato para os líderes do Alto Comando Militar através de comunicados oficiais. Na capital guineense, Embaló deixa ainda presos políticos, refugiados em embaixadas e sobretudo uma população em vias de lhe ver ser cortados os apoios financeiros e económicos que garantem a sobrevivência diária num dos mais pobres países do mundo.

Embaló tem agora pela frente um ano de travessia no deserto para esquecer a humilhação de que foi alvo. Só o futuro dirá se nas próximas eleições a população guineense esquecerá a fome e os sacrifícios que vão sofrer por causa da vaidade de um homem de joelhos.

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