A Guiné-Bissau voltou a ser abalada por um caso macabro. O corpo de Mamadú Tanu Bari, ex-chefe do Grupo Especial da Presidência da República, foi encontrado no rio Mansoa, em João Landim, embrulhado num saco e amarrado com arame farpado.
Ainda não foi possível apurar quem executou a operação. Tanu Bari, irmão de Tcherno Bari, conhecido como Tcherninho, ex-chefe de Segurança do Presidente, encontrava-se foragido em Portugal desde a detenção do irmão.
O mistério que envolve este assassinato dilatou quando a Polícia Judiciária (PJ) foi ao local onde estavam os restos mortais de Tanu Bari. Mesmo sem a realização das perícias necessárias, determinou-se a imediata sepultura do corpo. Agentes da PJ afirmaram que militares presentes em João Landim tentaram impedir o trabalho de investigação, pressionando para um enterro rápido, uma vez que o cadáver já estava em avançado estado de decomposição.
No mesmo dia em que a morte de Bari tornou-se pública, foi divulgado um áudio de uma conversa em crioulo entre a vítima e, presumivelmente, o Presidente Umaro Sissoco Embaló. Na gravação, a voz atribuída a Embaló disse ao militar para regressar à Guiné-Bissau a fim de “resolverem problemas” como “pai e filho”, em vez de, “na qualidade de militar, estar a fugir como aconteceu”.
Durante a conversa, cuja gravação a e-Global teve acesso, Sissoco Embaló acusa Tanu Bari de ter-se tornado um dos principais defensores do irmão Tcherno Bari, não obstante saber que “ele se meteu em situações complicadas”.
A família de Tanu Bari confirmou, em conferência de imprensa realizada a 26 de Julho, que o corpo encontrado no rio é do ex-militar e exige justiça. Até ao momento, as autoridades guineenses não se pronunciaram, mas a Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH) já se pronunciou sobre o sucedido e exige uma investigação para identificar os responsáveis.
No áudio, cuja autenticidade da voz foi confirmada pela família, a voz atribuida ao Presidente acusa Tcherno Bari de “ter cometido atrocidades”, sem especificar quais, e insinua que Tanu teria manifestado solidariedade com ele. Bari reage, “nunca soube de nada de errado que Tcherno fez”.
Quando Embaló garante que “ninguém faria nada” a Tcherno, Tanu rebate avançando que quem entrou na casa do irmão “não foi para detê-lo, mas sim matar”, o que teria justificado a sua fuga.
“Foi por isso que saí. Saí do país para não viver a mesma situação que o meu irmão”, disse Tanu Bari que lembrou o Presidente sobre a lealdade que sempre lhe demonstrou. “Senhor Presidente, estou altamente surpreendido com o que está a acontecer. Por tudo aquilo que fizemos para ti, é esta a retribuição. Não consigo compreender. Tive que fugir para não estar na mesma situação que o meu irmão.”
Em outro momento, a voz atribuída a Embaló tenta o convencer a regressar. “Tu sabes que eu te trato como filho. Aliás, podes mesmo confirmar que não permito que meninos estejam perto de mim. Mas és um menino de quem gosto tanto e trato-te como meu filho. Portanto, volte para Bissau e deixe de teatro.”
Bari responde, “Senhor Presidente, não estou a fazer teatro. Estou a fugir de algo grave que me pode acontecer. Achas que todos são fiéis a ti, mas tudo o que falas com eles, contam-nos. No caso do Tcherno, não foram detê-lo. Quem lá foi, era para matá-lo. Portanto, eu mesmo é que o levei para o Estado-Maior. Quanto a mim, Quemo Sanhá disse a uma pessoa que ele vai-me deter a qualquer momento, porque tirei armas de um determinado sítio para outro. Que fique claro, não tirei arma alguma, porque não sou doente de cabeça. Outro aspecto, deste-me uma missão para o sul do país, fui com um militar e de regresso, o Quemo mandou detê-lo. Expliquei-te e nada fizeste. Digo mais uma vez, no dia em que não quiser trabalhar consigo, vou afastar-me.”
Como Tanu Bari regressou ao país?
O retorno de Tanu Bari continua envolto em mistério. O tom do áudio não confirma que o Presidente terá convencido a regressar. O que se sabe é que Bari voltou “via Senegal”.
A versão apresentada pela família indica que, ao chegar ao Senegal, pediu a um familiar para acompanhá-lo até São Domingos, a cerca de 160 km de Bissau e a pouco mais de 130 km do local onde o corpo seria encontrado. Um parente confirma que se separaram em São Domingos e que, a partir daí, não há mais informações.