Numa altura em que as autoridades de transição em Bissau enfrentam a perspectiva de não serem capazes de pagar os salários já em janeiro, a notícia da apreensão em Lisboa de cinco milhões de euros num jato privado que transportava a esposa de Umaro Sissoko Embaló, o ex-Presidente, está a lançar ondas de choque no Alto Comando Militar.
Recorde-se que a Polícia Judiciária de Portugal anunciou no último fim de semana a apreensão de cinco milhões de euros que estariam a ser transportados de Bissau até Lisboa por Dinísia Embaló, esposa do ex-Presidente da República. Na sequência do caso, a ex-Primeira Dama foi já constituída arguida em Portugal sob suspeitas de branqueamento de capitais.
Apesar do transporte ter sido feito por Dinísia, ninguém em Bissau duvida de que é Embaló, actualmente a residir numa mansão em Marrocos, o verdadeiro proprietário do dinheiro. Por isso mesmo no Alto Comando Militar, o sentimento dominante é de que Sissoko Embaló “traiu” o processo de transição.
O suposto Golpe de Estado liderado por Horta Inta-A tinha como objectivo primordial salvaguardar a posição de Sissoko Embaló e evitar a humilhação pública deste com uma derrota nas eleições presidenciais contra Fernando Dias. Com o golpe, os militares garantiam a preservação da imagem de Embaló, e este, através das suas redes de influência internacionais, assegurava que a actividade do país seguiria sem sobressaltos e sem grandes pressões.
A apreensão dos cinco milhões em Lisboa fez soar as campainhas de alarme no gabinete de Horta Inta-A. Embaló retira o dinheiro do país, deixando às autoridades de transição a tarefa de controlar a previsível revolta popular com os cofres do Tesouro vazios já em Janeiro. Em simultâneo, CEDEAO, União Europeia e ONU colocam o país numa forte pressão internacional para o retorno à ordem constitucional.
Ontem, 17 de dezembro, Horta Inta-A foi mesmo obrigado a cancelar uma comunicação à Nação para enfrentar em reunião à porta fechada várias críticas de militares de alta patente participantes activos no Golpe e que pediam explicações sobre a razão de a Embaló ter sido permitido tirar do país um valor tão elevado num período tão crítico para a Guiné-Bissau e para a consumação do projecto militar. Foi nesta reunião que por várias vezes, o ex-Presidente Embaló foi acusado de traição ao projecto de transição e Horta Inta-A foi pressionado para assumir publicamente uma ruptura com a ex-figura máxima do país..
Segundo o que foi possível apurar, uma das propostas em cima da mesa em apreciação por Horta Inta-A passa por utilizar o caso dos cinco milhões de euros para a abertura de um processo na justiça contra Embaló e a sua esposa em Bissau. O Presidente da República de transição estará também a avaliar a possibilidade de uma eventual exoneração dos membros do Governo que permitiram a saída do país deste enorme valor, sem ter em conta a grave situação económica do país já a partir de janeiro.