O presidente do Conselho de Administração da organização não-governamental Pro-Ativos, Nabilai Ensa Sambú, exige que sejam tomadas medidas para salvar a pesca e os mangais. A seu ver, “sem fiscalização, sem ciência e sem apoio aos pescadores, áreas protegidas e mangais estão condenados”.
Ainda de acordo com o também coordenador científico do Departamento GITA, o mar do país está a ser saqueado, poluído e abandonado. Sambú é Mestre em “Gestão Integrada do Ambiente” e especialista em atividades alternativas voltadas para a conservação.
O especialista traçou assim um retrato crítico do estado do ecossistema marinho e costeiro nacional em 2026, devido à falta de meios, leis que não se cumprem, comunidades esquecidas e um Governo que, segundo disse, “está alinhado com o plano, mas os meios são escassos”.
Para o representante da Pro-Ativos, as três maiores ameaças atuais são o uso de artes de pesca nocivas, a captura excessiva de espécies de ciclo longo e o incumprimento das regras nas zonas de conservação.
O problema, salientou, não é apenas dos pescadores. “O setor está a enfrentar grandes dificuldades, com poucos recursos para cobrir missões de fiscalização marítima e para o controlo regular das nossas zonas de pesca artesanal e da pesca industrial”, concluiu.
Nabilai Ensa Sambú considera “insuficiente” o período de defeso biológico fixado pelo Estado face ao esforço de pesca feito por nacionais e “frotas internacionais” na Zona Económica Exclusiva. Isto resulta em menos peixe, menos rendimento e um ciclo que se rompe, constatou.
Pesca artesanal
A pesca artesanal, base da alimentação de milhares de famílias, está “vulnerável”. Isto porque, explicou a mesma fonte, faltam financiamentos, formação contínua e materiais. As mulheres comerciantes de pescado, apesar de organizadas, “não são bem apoiadas”.
Por sua vez, os apoios “limitam-se a pequenas oficinas de capacitação, que, em termos económicos e de sustentabilidade, são muito insuficientes”.
A Guiné-Bissau tem áreas protegidas, como o Parque Nacional Marinho João Vieira e Poilão e o Parque Nacional das Ilhas de Orango. Mas, na prática, a proteção falha por falta de envolvimento real, segundo Nabilai.
A estratégia que funciona, observou, passa pela “participação direta das comunidades residentes”, o que inclui a criação de comités de gestão local, o reforço de agrupamentos de mulheres e pescadores e o envolvimento das universidades.
A seu ver, o Instituto da Biodiversidade e das Áreas Protegidas (IBAP), a Direção do Parque e as organizações não governamentais (ONGs) precisam de “assumir o papel de facilitadoras junto das comunidades”, devendo o Governo ser o interlocutor para atrair investimento.
Outra proposta urgente consiste em “criar um programa de bolsas de estudo para investigação local, para estudantes de mestrado e doutoramento na área da conservação”.
“Porque conservamos?”, questionou. A resposta é direta: “conservamos para melhorar as condições económicas e de produção, para garantir a segurança alimentar e reduzir a pobreza local”.
A saída, prosseguiu, é alinhar conservação com economia local. Valorizar iniciativas que rentabilizem as famílias para “reduzir a pressão sobre os recursos: florestal, pesqueiro, mangal e caça ilegal”.
O desafio é maior. A venda de terrenos, a exploração de madeira e os crimes ambientais “não dependem apenas da direção do parque e do IBAP”. Exigem administração local, brigadas de proteção da natureza e tribunais regionais a funcionar.
Alterações climáticas
As alterações climáticas já se fazem sentir. A subida do nível do mar e a salinização já afetam os arrozais e as ilhas dos Bijagós.
O especialista apontou a agricultura itinerante e o abate de grandes árvores como fatores que aceleram “a seca e a erosão dos solos”. Nas bolanhas de água salgada, a forma atual de produção é uma bomba-relógio: “Daqui a 20 anos, vamos ter grandes desafios com o elevado risco de inundações em grande parte dos campos de arroz e nas habitações”.
O alerta é também para os mangais, que “são floresta tropical, mas desempenham um papel extremamente importante para a nossa vida e para a zona costeira”. É assim necessário incentivar técnicas de produção simples “sem recorrer ao corte dos mangais”.
Problema do plástico
Nas ruas de Bissau e nos canais, continuou, o plástico bloqueia o escoamento. Esse lixo chega ao mar, fragmenta-se em microplásticos e é confundido com comida pelos peixes.
A má gestão de resíduos causa eutrofização, mortandade de espécies e proliferação de algas tóxicas. “É um atentado à saúde pública e aos ecossistemas”, concluiu Ensa Sambú.
No seu ponto de vista, é inegociável reforçar a fiscalização da Zona Ecológica Exclusiva e “potenciar” a pesca artesanal com infraestruturas de conservação do pescado, materiais e formação.
Ele aposta ainda na ciência, ao referir que “o programa de investigação científica deve ser prioritário para, com base em dados, conhecermos o estado de saúde e de produção dos recursos”. E cobra mais apoio das ONGs aos pescadores e às mulheres.
“O Ministério do ramo deve trabalhar para que o programa de educação ambiental seja incluído no sistema e no plano curricular”, defendeu.
O recado final é claro: sem dinheiro, sem ciência e sem colocar as comunidades no centro, a Guiné-Bissau continuará a ver o seu maior património natural desaparecer.