Guiné-Bissau: PAIGC denuncia sequestro de DSP e enfrenta contestação interna

O Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) denunciou o que qualifica como sequestro prolongado do seu presidente, Domingos Simões Pereira (DSP), ao mesmo tempo que reafirma confiança na sua liderança, num contexto marcado por tensões internas e pela crise política no país.

Em deliberação da Comissão Permanente do PAIGC, reunida por via online a 4 de fevereiro, analisou a situação política nacional, que considera caracterizada pela violação das liberdades políticas e dos direitos humanos por parte das autoridades militares. No documento, o partido sustenta que as autoridades que conduziram o golpe continuam a manter um ato arbitrário ao prolongar o sequestro de Domingos Simões Pereira, apesar da sua transferência da prisão da Segunda Esquadra para a residência, após 64 dias de detenção.

A Comissão Permanente exige a libertação imediata e incondicional do líder do partido, bem como a reabertura da Sede Nacional do PAIGC e de todas as sedes regionais. Na mesma deliberação, o partido saúda a libertação do advogado Augusto Nansambé, que esteve detido de forma que considerada arbitrária durante várias semanas. O PAIGC congratula-se ainda com o posicionamento da comunidade internacional contra o regime militar e apela à Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) para assumir responsabilidades e aplicar sanções aos indivíduos que, segundo o partido, impedem o cumprimento das decisões tomadas.

Críticas internas

Paralelamente a esta posição oficial, o partido enfrenta críticas internas. Um grupo de militantes e dirigentes, que se autodenomina Grupo de Reflexão, tornou público, a 5 de fevereiro, um comunicado em que acusa a atual direção do PAIGC de falta de visão estratégica e de privilegiar interesses pessoais em detrimento do partido e do povo guineense. Segundo o grupo, o PAIGC encontra-se “desamparado, impotente e abandonado” pelos seus principais dirigentes, que estariam em silêncio ou no exílio, receosos de enfrentar a realidade política do país.

As acusações foram prontamente rejeitadas pela direção do partido e por organizações de massa ligadas ao PAIGC, que ao longo da semana reiteraram o compromisso com os estatutos e com a liderança de Domingos Simões Pereira. Estas estruturas consideram que as alegações do Grupo de Reflexão não têm enquadramento estatutário e rejeitam qualquer tentativa de associar a direção do partido à legitimação do golpe de Estado na Guiné-Bissau.

No seu comunicado, o Grupo de Reflexão sustenta que várias decisões políticas tomadas pela atual liderança resultam de “incompetência e falta de visão estratégica” e defende a necessidade de “resgatar” o partido, recolocando-o, segundo os signatários, ao serviço do povo guineense. O grupo garante que o PAIGC voltará a ser um instrumento de esperança e progresso nacional e convoca militantes e simpatizantes a unirem-se em torno desse objetivo, com vista a devolver dignidade e credibilidade à organização.

A conjugação da denúncia internacional sobre a situação de Domingos Simões Pereira com o surgimento de críticas internas expõe um momento de elevada tensão no seio do PAIGC, num cenário político marcado pela instabilidade institucional e pela disputa sobre o rumo do principal partido histórico da Guiné-Bissau.

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