Diversos setores da sociedade guineense intensificaram esta semana a pressão interna e externa para que seja respeitada a vontade popular expressa nas urnas nas eleições presidenciais de 23 de novembro, num contexto ainda marcado por detenções, denúncias de violência política e pela suspensão do processo eleitoral. Da Guiné-Bissau à diáspora, igrejas, organizações juvenis e estudantes mobilizam-se contra o que classificam como uma rutura grave da ordem democrática.
A Igreja Evangélica da Guiné-Bissau juntou-se às vozes que apelam às atuais autoridades para adotarem, ainda a tempo, as diligências necessárias em concertação com entidades sociais, religiosas e políticas, nacionais e internacionais, de forma a garantir que “a vontade expressa do povo soberano da Guiné-Bissau nas recentes eleições possa ser conhecida e respeitada”. Num comunicado tornado público a 4 de dezembro, a Igreja declarou-se “contra o ódio, a divisão e a vingança” e defendeu “a unidade e o progresso” do país, considerando que, perante o clima de tristeza e incerteza, não poderia permanecer em silêncio.
Ainda no mesmo documento, a entidade religiosa reitera a sua concordância com os valores democráticos. “A Igreja sempre estará ao lado do povo e da democracia. Queremos o respeito pelas regras democráticas e respeitamos as legítimas instituições democráticas e republicanas”, sublinhou. Manifestou igualmente oposição à tomada de poder pela força, lembrando que rejeita “a tomada abrupta e ilegítima do poder pela força das armas ou qualquer outro ato que recorra à violência, quer física, quer psicológica, para impor a sua vontade”. A Igreja fez ainda um apelo para que os detidos no âmbito dos recentes acontecimentos sejam tratados com dignidade e, na ausência de um processo-crime, libertados de imediato para junto das suas famílias.
A mobilização alargou-se às juventudes políticas. As Juventudes API Cabas Garandi e PAI – Terra Ranka exigiram a retoma imediata e sem manipulações do processo de divulgação dos resultados eleitorais, em estrito respeito pela lei e pela vontade popular. As duas estruturas juvenis condenaram igualmente as alegadas tentativas de golpe, o assalto às instalações da Comissão Nacional de Eleições (CNE), bem como os raptos e detenções arbitrárias de líderes políticos, entre os quais Domingos Simão Pereira.
Na declaração conjunta tornada pública a 4 de dezembro, as juventudes apelam à comunidade internacional, incluindo a CEDEAO, União Africana, CPLP, Nações Unidas e parceiros democráticos, para uma vigilância estreita da situação. Reafirmam ainda a sua unidade enquanto forças comprometidas com a defesa do Estado de Direito, da paz e da estabilidade nacional. “Repudiamos, com a maior firmeza, todas as formas de violência política, raptos, detenções ilegais e tentativas de intimidação dirigidas aos líderes políticos e cidadãos”, lê-se na nota. As organizações exortaram também os guineenses a manterem-se mobilizados e vigilantes na defesa da democracia e da liberdade.
A contestação atravessou fronteiras e chegou ao Reino de Marrocos, onde estudantes guineenses difundiram um abaixo-assinado exigindo que Umaro Sissoco Embaló e os seus colaboradores “sejam investigados, responsabilizados e sancionados pelas instâncias internacionais competentes”, de modo a “salvaguardar o Estado de Direito Democrático e impedir a perpetuação da impunidade”. O documento, com mais de meia centena de subscritores e datado de 3 de dezembro, repudia os recentes acontecimentos políticos que conduziram os militares ao centro do poder durante o processo eleitoral.
Os estudantes classificam o cenário atual como “um golpe de Estado simulado”, resultando numa usurpação do poder por forças militares a ele [presidente deposto] vinculadas. “Consideramos esta situação uma afronta inequívoca à vontade popular, aos princípios democráticos e ao Estado de Direito no nosso país”, afirmam, sublinhando que muitos dos signatários prosseguem estudos no exterior com o propósito de servir futuramente a Guiné-Bissau com responsabilidade e dignidade. Perante o que classificam como um quadro alarmante, exigem a conclusão transparente e legítima do processo eleitoral e a libertação incondicional de todos os detidos, com garantias plenas dos seus direitos humanos.
As diferentes posições convergem num mesmo apelo à restauração da legalidade constitucional, à proteção das liberdades fundamentais e ao respeito inequívoco pela soberania popular. Entre o território nacional e a diáspora, cresce o coro de vozes que pede uma solução democrática para uma crise na Guiné-Bissau.
(Foto arquivo)