O grupo de rappers guineenses Fartudibos lançou em junho o álbum Sissoco Na Kai, assumindo o rap como instrumento de denúncia política num país marcado por uma profunda crise institucional, pelo medo e por acusações recorrentes de perseguição a vozes críticas.
O projeto, apresentado como álbum de intervenção musical, circula em plataformas digitais e em comunidades ligadas ao rap guineense. A sua existência é confirmada por publicações e conteúdos audiovisuais associados ao movimento Fartudibos, embora não tenha sido possível confirmar de forma independente todos os detalhes de produção e distribuição do disco.
Em entrevista à e-Global, Marlon Lopes Correia, conhecido artisticamente como Marlon C, cantor, rapper e produtor do movimento, explicou que o título do álbum traduz uma tomada de posição frontal contra Umaro Sissoco Embaló e contra o sistema político que o rodeou. “Esse nome é uma afirmação de que o Sissoco ia cair de uma maneira ou outra”, disse.
“Somos apologistas de o tirar de forma democrática, através da eleição, exatamente como aconteceu. Mas ainda falta o restante da cúpula dele”, declarou.
A referência política surge num contexto particularmente sensível. A Guiné-Bissau realizou eleições gerais em 23 de novembro de 2025, mas o processo foi interrompido três dias depois por uma intervenção militar quando oficiais do autodenominado Alto Comando Militar (ACM) tomaram o poder em 26 de novembro de 2025, antes da divulgação dos resultados.
Segundo Marlon C, Fartudibos não pretende limitar a intervenção artística à crítica de uma figura individual. O objetivo, diz, é atingir o conjunto de estruturas políticas que considera responsáveis pela degradação das liberdades públicas.
Segundo o rapper, o grupo não vai parar “até derrubar todos eles, utilizando ritmos e poesias”. O lançamento em Junho, acrescentou, resultou de constrangimentos de tempo e de logística.
“Trabalhamos à distância com algumas dificuldades, mas o nome do álbum mostra exatamente a vontade de o mandar embora”, disse.
O coletivo assume a música como “vetor para abanar as consciências”. Questionado sobre a urgência política do projeto, Marlon C apontou para um quadro de violência institucional, repressão e medo.
“Basicamente tudo. As pessoas desaparecem apenas por emitirem as suas opiniões. Vimos o caso do nosso irmão Vigário Luís Balanta e outros: raptos, espancamentos, desaparecimentos físicos de forma misteriosa, prisão arbitrária, perseguição a adversários políticos”, afirmou.
O caso de Vigário Luís Balanta, ativista guineense ligado ao Movimento Revolucionário Pó di Terra, tornou-se um dos símbolos recentes da tensão política no país. O corpo do ativista foi encontrado com sinais de violência, a cerca de 30 quilómetros de Bissau, depois de se ter destacado em denúncias contra o regime militar e na defesa das liberdades cívicas.
“Farto dos desmandos do regime chefiado pelo Sissoco. Optamos por o derrubar primeiro, para depois dar seguimento com os demais. Korta kabeça di cobra. Portanto, Sissoco Na Kai é também uma chamada de atenção para os seus apóstolos”, explicou.
“Todos nós temos consciência dos riscos, mas sentimos a necessidade de nos posicionar ao lado do povo. Decidimos ser La voix de ceux qui n’ont pas de voix, a voz dos que não têm voz”, afirmou.
Marlon C relatou ataques contra o grupo e acusações de ligação partidária, uma marca frequente nos contextos de polarização política, onde a crítica artística é muitas vezes confundida com militância formal.
“Com tudo isso, não perdemos o foco: a nova independência da nossa terra e do nosso povo”, concluiu.
Sobre a reação ao álbum, o rapper afirma que o impacto público foi condicionado pelo medo. “As pessoas estão até com medo de reagir às nossas músicas, sobretudo as que se encontram na Guiné-Bissau, pelos motivos que todos conhecemos”, revelou.
Ainda assim, Marlon C acredita que a intervenção artística pode romper o silêncio e mobilizar novas gerações. “A música tem esse aspecto de mexer com as pessoas, principalmente quando é direta, sem curvas. Esperamos que as novas gerações usem isso para mudar o estado de consciência do povo guineense”, disse.
Sissoco Na Kai surge, assim, como mais do que um álbum de rap. É um manifesto político em forma de música, construído na fronteira entre denúncia, resistência e mobilização cívica. Num país onde a crise política permanece aberta e onde a transição militar continua sob contestação, Fartudibos procura transformar a palavra cantada numa arma de consciência coletiva.