A revisão da Constituição guineense e a transformação do regime político em presidencialista vai mesmo ser uma realidade, confirmou Nelson Moreira, deputado do MADEM-G15 e vice-presidente do Conselho Nacional de Transição. O objetivo oficial declarado pelo deputado é a realização de “reformas estruturais no Estado” que permitam ultrapassar a crise política e institucional da Guiné-Bissau. Mas na verdade, a revisão Constitucional, iniciada no último sábado, é uma exigência de Sissoko Embaló.
Nas últimas semanas, Horta Inta-A e elementos do Alto Comando Militar deram sinais de pretenderem desviar-se do plano original do Golpe de Estado de 26 de novembro, o qual permitiu evitar a derrota nas urnas de Embaló face ao candidato da oposição Fernando Dias. Horta Inta-A deu mesmo a conhecer à CEDEAO que pretenderia avançar como candidato às presidenciais, como forma de tirar de jogo Embaló. Horta Inta-A também não travou as críticas públicas em Bissau relativas ao caso do desvio dos cinco milhões de euros do Tesouro guineense apreendidos à mulher de Embaló em Lisboa, esperando com isso danificar a imagem política do ex-Presidente.
No entanto, e de acordo com registos telefónicos na Presidência da República, Embaló terá exigido a Horta Inta-A o regresso à linha acordada a 26 de novembro para a passagem de poder e o avançar do dossier da revisão constitucional. Tornar a Guiné Bissau num regime presidencialista é um sonho declarado de Embaló que lhe foi sendo frustrado perante o controlo do Assembleia Nacional pelo PAIGC, principal partido da oposição. Embaló exigiu ainda mão de ferro junto dos que publicamente lhe mostrassem “falta de respeito”.
Embaló ameaçou que caso Horta não iniciasse esta reforma “já” iria quebrar o seu silêncio e responsabilizar o Alto Comando Militar pelo Golpe de Estado e apelar publicamente a sanções internacionais e à intervenção de forças militares da CEDEAO na Guiné-Bissau para restauro da ordem constitucional.
Segundo apurado, logo após o telefonema, Horta Inta-A reuniu com os seus elementos mais próximos para transmissão das exigências de Embaló e deu ordens para o início do processo de revisão constitucional pelo Conselho Nacional de Transição, organismo sem reconhecimento nem legitimidade externa. Segundo a avaliação do Alto Conselho Militar saída da reunião de emergência, ainda não é chegado o momento para enfrentar Embaló, o qual mantém intactas todas as suas redes de influência internacionais e pode ser um factor de desestabilização da Guiné-Bissau.
Já no domingo, Vladimir Deuna, dirigente do MADEM G-15 que recentemente defendeu nas redes sociais a vitória do candidato da oposição Fernando Dias nas últimas presidenciais, anunciou ter sido espancado na sua residência por homens armados e encapuzados, algo que se tornou recorrente nos últimos quatro anos junto de todos os que criticavam publicamente Sissoko Embaló.