Com mais de 93% dos votos do círculo da emigração apurados, o mapa eleitoral fora de Portugal revela um padrão claro: André Ventura foi o candidato mais votado entre os emigrantes, com 41,89%, confirmando um desempenho muito acima do registado em território nacional. O candidato apoiado pelo Chega lidera de forma destacada em vários continentes, em especial na Europa francófona, nas Américas e em África.
No total da diáspora, António José Seguro surge em segundo lugar, com 23,24%, seguido por João Cotrim de Figueiredo, que não foi além dos 15,50%, apesar de uma campanha fortemente ancorada em referências liberais internacionais. Luís Marques Mendes ficou em quarto lugar (8,03%), enquanto Henrique Gouveia e Melo recolheu 5,18%.
França e Suíça: a grande mobilização pró-Ventura
É na Europa que André Ventura consolida uma das suas maiores vitórias políticas. Em França, quase sete mil eleitores portugueses votaram no candidato do Chega, o que corresponde a 60,46% da votação. Só em Paris, Ventura concentrou mais de quatro mil votos — um salto expressivo face a 2021, quando tinha ficado pelos 375 votos em todo o país.
Na Suíça, o resultado foi ainda mais contundente: 63,46% dos votos, com 8.671 eleitores, vencendo nos três consulados — Berna, Genebra e Zurique. A mobilização também disparou: a taxa de participação quase quadruplicou face às últimas presidenciais.
Nestes dois países, Seguro ficou em segundo lugar e Cotrim em terceiro, com valores muito próximos entre si, mas longe do primeiro classificado.
Luxemburgo para Ventura, Bélgica e Alemanha para Seguro
O padrão repete-se no Luxemburgo, onde Ventura vence com 42,53%. Já na Bélgica, Alemanha e Chéquia, o vencedor foi António José Seguro, confirmando uma maior resiliência do voto socialista em comunidades portuguesas mais antigas e institucionalizadas.
Em Espanha, o cenário é diferente: João Cotrim de Figueiredo vence com 39,86%, num dos poucos países onde o liberal fica claramente à frente de Ventura e Seguro.
Países liberais não aderiram a Cotrim
Apesar do apoio explícito de figuras liberais europeias, Cotrim de Figueiredo falhou a mobilização nos países governados por partidos da sua família política. Nos Países Baixos, perdeu para Seguro; no Canadá, ficou em terceiro, com apenas 7,57%, num país onde Ventura ultrapassou os 61%.
Na Argentina, onde as políticas de Javier Milei são frequentemente citadas pela Iniciativa Liberal, Cotrim recolheu apenas 11 votos, ficando atrás de Ventura, Seguro e Marques Mendes.
A exceção foi a Irlanda, onde Cotrim venceu com 35,76%, superando Seguro por uma margem curta — um dos raros triunfos liberais na diáspora.
CPLP: Ventura lidera no Brasil, Angola e Moçambique
Nos países da CPLP, André Ventura vence no Brasil, Angola e Moçambique. No Brasil, obteve 48,81%, mais do dobro de Seguro, num contexto de abstenção superior a 98%.
Já Seguro venceu em Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, mostrando maior implantação em países africanos de menor dimensão.
Geopolítica pesa em votos simbólicos
Em contextos geopolíticos sensíveis, o voto revela leituras políticas claras. Em Israel, Ventura foi o mais votado. Na Rússia, Henrique Gouveia e Melo liderou entre os poucos votantes, enquanto António Filipe não recebeu qualquer voto. Na Venezuela, Ventura venceu com 50,25%, num país em plena convulsão política.
Ásia: Marques Mendes destaca-se, Ventura vence na Austrália
A grande surpresa surge na Ásia, onde Luís Marques Mendes lidera, impulsionado sobretudo pela China, onde arrecadou 1.076 dos 1.171 votos. Seguro venceu no Japão e na Coreia do Sul, enquanto Ventura foi o mais votado na Índia.
Na Austrália, num universo eleitoral maior, Ventura voltou a liderar com cerca de 48%, seguido por Seguro e Cotrim.
Um eleitorado longe de ser homogéneo
Os resultados mostram que o voto dos emigrantes não é uniforme, mas apresenta padrões claros: forte adesão a Ventura em comunidades grandes e mobilizadas, maior consistência de Seguro na Europa central e países africanos, dificuldades estruturais de Cotrim em transformar afinidades ideológicas em votos e um desempenho inesperadamente forte de Marques Mendes na Ásia.
Com a segunda volta à porta, a diáspora — frequentemente esquecida — confirma-se como um dos blocos eleitorais mais politicamente expressivos destas presidenciais.