Depois de uma longa carreira no governo de Paul Biya e de vários anos de marginalização política, Issa Tchiroma Bakary regressa ao centro da cena política camaronesa.
O antigo ministro, que abandonou o executivo em junho deste ano, foi designado pela União para a Mudança como “candidato consensual da oposição” às presidenciais de 12 de outubro. A escolha, no entanto, não foi saudada pelos restantes dez concorrentes oposicionistas, revelando o ceticismo e a desconfiança que ainda pairam em torno da sua figura.
Nascido em 1946 em Garoua, no nordeste dos Camarões, Tchiroma estreou-se na política no seio da União Nacional dos Camarões, antecessora do atual RDPC. Após estudos em França, regressou ao país e construiu carreira nos Caminhos-de-Ferro estatais.
Em 1984, foi preso após a tentativa falhada de golpe contra Biya, tendo permanecido seis anos detido sem julgamento. Libertado em 1990, tornou-se uma das vozes mais combativas das “operações cidades mortas”, que abriram caminho ao multipartidarismo. Pouco depois, fundou a UNDP, mas a sua trajetória depressa revelou pragmatismo político. Em 1992 entrou para o governo como ministro dos Transportes, rompendo com Bello Bouba Maïgari.
Após uma década afastado, regressou em 2009 como ministro da Comunicação, cargo que lhe trouxe notoriedade, mas também a imagem de “porta-voz das crises” do regime. Em 2019 foi relegado para a pasta do Emprego, sinal de perda de confiança presidencial. O afastamento definitivo consumou-se este ano, quando Biya recusou recebê-lo em audiência.
Agora, Tchiroma apresenta-se como a voz da rutura. Reconhece que a fragmentação da oposição é um risco, mas sublinha que o verdadeiro desafio está no controlo que a administração territorial exerce sobre o processo eleitoral. Só uma vitória esmagadora, um “maremoto político”, como disse à RFI, poderá impedir manipulações e garantir uma transição. O candidato insiste que, num sufrágio verdadeiramente transparente, Biya não ultrapassaria os 20% dos votos, apesar dos 43 anos consecutivos no poder e da tentativa de renovar mandato aos 92 anos.
O ex-ministro rejeita que a sua candidatura seja uma contradição face ao passado no governo. Afirma que Biya deveria ter a lucidez de abandonar o poder antes de ser abandonado por ele, acusando ainda o país de ser hoje dirigido por uma “oligarquia invisível” que governa nas sombras. Chegou mesmo a denunciar ameaças de prisão por parte de colaboradores da presidência, conscientes da sua vulnerabilidade de saúde, “bastariam dois meses sem medicamentos para o desfecho ser fatal”, acusa.
Quanto a alianças, garante não ter inimigos na oposição, incluindo Bello Bouba Maïgari, outro candidato do Norte, mas ressalva que a sua ambição é corporizar a esperança da juventude. Às críticas sobre a sua idade, com mais de 70 anos, responde com ironia, recordando que grandes potências são governadas por líderes quase octogenários. “Em política, quando se fala da idade é porque já não há argumentos”, disse.
Com este discurso, Tchiroma procura transformar uma longa experiência governativa e a recente cisão com o círculo presidencial em trunfos para galvanizar os descontentes. O objetivo é claro, passar de aliado pragmático a verdadeiro rival de Paul Biya e, talvez, provocar o tão aguardado maremoto eleitoral que ponha fim a mais de quatro décadas de poder absoluto.
RN