Relatório sobre a Irmandade Muçulmana coloca governo francês em alerta

O governo francês está de alerta após a divulgação de um relatório oficial sobre a Irmandade Muçulmana e o islamismo político em França. O documento, tornado público por decisão do ministro do Interior, Bruno Retailleau, analisa a presença, a ideologia e a influência da Irmandade Muçulmana (IM) em França e na Europa, com foco especial na sua vertente política e nos riscos para a coesão nacional.

Fundada em 1928 no Egito por Hassan al-Banna, a Irmandade Muçulmana desenvolveu uma doutrina de islamismo integralista, com o objectivo de aplicar os princípios islâmicos a todos os aspectos da vida. Diferencia-se do salafismo pela sua estrutura organizacional e pelo objectivo político explícito de formar um Estado islâmico. O relatório destaca que, após perder influência no Norte de África e no Médio Oriente na sequência das “Primaveras Árabes”, a Irmandade reforçou a sua presença na Europa, reestruturando-se em organizações pan-europeias e adaptando a sua doutrina ao contexto europeu.

Desde os anos 1960, a IM tem promovido um “Islão europeu”, combinando flexibilidade religiosa e integração social, especialmente sob influência de figuras como Youssef al-Qaradawi e Tariq Ramadan. O relatório acusa membros da organização de praticarem um duplo discurso, moderado em público, mas com uma agenda islâmica oculta, baseada em estratégias de longo prazo, vitimização através do conceito de islamofobia e infiltração em instituições e organizações.

Em França, a principal representante da Irmandade é a federação Muçulmanos de França (MF), sucessora da União das Organizações Islâmicas de França (UOIF), dissolvida em 2017 após confirmadas as suas ligações à Irmandade Muçulmana. Segundo o relatório, a MF controla actualmente 139 mesquitas, 280 associações e 21 escolas privadas muçulmanas, além de centros culturais e associações juvenis, com uma forte presença em zonas urbanas como na Região Parisiense, Lille, Lyon e Estrasburgo. Esta rede permite à organização influenciar a educação religiosa, o discurso público e até o comportamento social dos fiéis.

A actuação da Irmandade abrange pregação religiosa, educação, acção caritativa e, mais recentemente, uma presença marcante nas redes sociais, através de “pregadores 2.0” que difundem uma visão conservadora e identitária do Islão, especialmente entre os jovens. Entre as mensagens promovidas estão o uso do véu islâmico, a separação de géneros, a resistência à laicidade francesa e a desconfiança em relação à sociedade ocidental.

O relatório alerta para o carácter subversivo do projecto da Irmandade, que, mesmo sem recorrer à violência, visa modificar progressivamente regras locais e nacionais, sobretudo em matéria de laicidade e igualdade de género. A estratégia passa por infiltrar instituições locais e influenciar políticas públicas, com apoio político e financeiro de países como Turquia e Catar. O movimento é acusado de contribuir na fragmentação social, promover um Islão identitário e explorar politicamente o sentimento de discriminação entre os muçulmanos franceses.

O documento também destaca o uso sistemático do termo “islamofobia” como instrumento político para silenciar críticas ou medidas públicas relativas à laicidade e segurança. Aponta igualmente a ambiguidade do activismo pró-palestiniano promovido pela Irmandade, que serve de veículo para ideias antissemitas, citando como exemplos os pregadores Hani Ramadan e Hassan Iquioussen.

Em resposta ao relatório, o presidente francês Emmanuel Macron determinou que o governo apresente, até Junho, novas acções para limitar a influência da Irmandade Muçulmana, incluindo propostas como a proibição do uso do véu islâmico por menores de 15 anos em espaços públicos, sob o argumento de defesa da igualdade de género e dos direitos da infância. A MF, por sua vez, nega vínculos com a Irmandade e alerta para o risco de estigmatização do Islão e dos muçulmanos em França.

O relatório coloca a Irmandade Muçulmana no centro do debate sobre laicidade, integração e segurança nacional em França. O governo francês considera que o avanço do islamismo político representa uma ameaça à coesão nacional e prepara medidas para reforçar o Estado laico e travar a influência da organização.

RN

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subescreve a Newsletter

Artigos Relacionados

Espanha continua a virar à direita apesar da agenda progressista de Pedro Sánchez

As recentes eleições regionais em Espanha reforçaram a...

0

Lyon: Celebração da língua portuguesa aconteceu com apresentação de livro de Ígor Lopes no Consulado-Geral de Portugal

Imagem: Ígor Lopes, jornalista e escritor luso-brasileiro, e...

0

Europa alerta para desinformação contra energia eólica e bloqueio de projetos

A Europa está a enfrentar uma crescente vaga...

0