FAO alerta para risco de resistência antimicrobiana associada ao desperdício alimentar

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) alertou que as perdas e o desperdício alimentar podem funcionar como reservatório e até acelerador da resistência antimicrobiana (RAM), defendendo a integração desta dimensão nas estratégias de vigilância e gestão do problema. A conclusão consta de uma nova revisão científica publicada na revista Infectious Diseases of Poverty, que procura colmatar lacunas de investigação sobre o papel do desperdício alimentar na disseminação da RAM.

Segundo os especialistas, o desperdício alimentar constitui um meio propício ao crescimento bacteriano, podendo favorecer a sobrevivência de microrganismos e de genes resistentes a antibióticos. O depósito em aterros ou lixeiras a céu aberto agrava os riscos, sobretudo devido à mistura com resíduos industriais, agrícolas e hospitalares, bem como à possível contaminação de solos e águas. Já processos como a compostagem, quando correctamente optimizados, ou a digestão anaeróbia utilizada na produção de biogás, podem contribuir para reduzir genes de resistência, embora ainda sejam necessários mais estudos.

O sector agrícola é apontado como um dos principais contribuintes para a resistência antimicrobiana, sendo a produção animal responsável por cerca de três quartos das vendas globais de antibióticos. Resíduos de medicamentos e genes resistentes têm sido detectados em produtos alimentares, especialmente carnes, mas também em vegetais. Em 2024, vários estudos identificaram níveis elevados de genes resistentes em resíduos alimentares provenientes de cozinhas, escolas e hospitais, por vezes superiores aos encontrados em lamas de esgoto ou estrume suíno.

A FAO defende uma abordagem integrada, baseada no princípio “Uma Só Saúde”, envolvendo governos, sector privado e sociedade civil. O relatório sublinha a necessidade de mais dados, sobretudo em países de baixo e médio rendimento, e de maior investigação sobre resistência a antifúngicos. Iniciativas como o sistema InFARM e o programa RENOFARM são apontadas como instrumentos-chave para reforçar a recolha de dados e reduzir a necessidade de antimicrobianos, garantindo a eficácia futura destes medicamentos essenciais.

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