Israel lança ataques devastadores no Líbano, no dia mais sangrento da guerra

Na manhã de segunda-feira, as forças Israelitas organizaram uma operação ofensiva (intitulada ‘Flechas do Norte’), autorizada por Washington, com o objetivo de bombardear e neutralizar pontos militares
estratégicos do Hezbollah espalhados em várias áreas do Líbano.

Estes ataques aéreos focaram-se inicialmente no sul, mas gradualmente espalharam-se por diversas regiões do território libanês (incluindo Jbeil, no norte e o Vale de Bekaa, a este), atingindo cerca de 1600
alvos do Hezbollah. No final do dia, as autoridades Libanesas contaram quase 500 pessoas (a maioria civis) e mais de 1600 feridos.

Apesar do governo liderado por Benjamin Netanyahu ter indicado que os alvos seriam exclusivamente relacionados com o Hezbollah (incluindo residências que alegadamente escondiam armamento para servir o grupo xiita), centenas de casas foram bombardeadas, famílias inteiras chacinadas e até ambulâncias e paramédicos foram atacados pelas forças Israelitas.

Durante o dia inteiro, centenas de milhares de civis tentaram fugir aos bombardeamentos, especialmente no sul, e lançaram-se às estradas em direção a Beirute, causando caos rodoviário e filas de quase 100km.
Muitas destas famílias ficaram retidas no trânsito durante mais de 10 horas, sem acesso a água ou alimentos, e em várias ocasiões foram vítimas de bombardeamentos Israelitas.

Em Beirute, vários residentes receberam mensagens de texto e até telefonemas com avisos provenientes de Israel de que as suas residências seriam atacadas por aviões de guerra e para se manterem longe de edifícios governamentais.

Milhares de libaneses fugiram em direção ao aeroporto na capital e que, apesar da situação crítica no Líbano, conseguiram encontrar voos disponíveis para sair do país. Contudo, o número de voos para
sair de Beirute caiu em 40% nas últimas 24 horas e muitas linhas aéreas cancelaram operações a partir do aeroporto da capital.

Os bombardeamentos continuaram quase incessantemente até à noite, mas com maior foco no Vale de Bekka, na zona este do Líbano. Muitas famílias ficaram retidas e isoladas nas respectivas residências devido aos bombardeamentos de estradas e pontes.

No final da tarde, foi reportado um ataque de drone Israelita em Beirute, que tinha como alvo Ali Karaki, um dos mais altos comandantes do Hezbollah. Os mísseis lançados pelo drone danificaram o edifício
onde se encontraria Karaki, causando alguns feridos ligeiros. Contudo, mais tarde foi confirmado que Karaki não se encontrava no local atingido e que a informação da sua localização teria sido falsamente
indicada pelo Hezbollah a um oficial do grupo xiita com o intuito de expor um oficial do Hezbollah como espião ao serviço de Israel. O oficial em questão alegadamente foi depois detido e estará de momento
sob interrogação por parte de membros do grupo xiita.

O Líbano sofreu os piores e mais sangrentos ataques desde o início deste conflito com o Israel e o número de mortos num só dia representa o mais brutal desde o fim da guerra civil em 1990. Muitos Libaneses relembraram os bombardeamentos de 2006, que fizeram cerca de 1300 mortos, mas ficaram chocados com a quantidade de vítimas mortais num só dia, nesta segunda-feira.

Dada a quantidade de civis internamente deslocados, a maioria proveniente do Sul, diversos indivíduos lançaram iniciativas para ajudar a encontrar residências temporárias em Beirute e em áreas montanhosas, que Israel normalmente não ataca. Porém, nalguns bairros na capital (predominantemente populados por cristãos e sunitas) houve incidentes onde pessoas locais se opuseram à entrada de cidadãos vindos do sul (na sua maioria xiitas). Este tipo de situação havia sido registado também em 2006, quando não-xiitas recusaram alojamento às civis que fugiam dos bombardeamentos Israelitas por os considerar associados ao Hezbollah.

À medida que esta guerra, que dura há quase um ano, vai escalando para níveis devastadores, grande parte da população Libanesa teme que o Líbano seja invadido e ocupado pelas forças Israelitas, especialmente se o Hezbollah não aceitar os termos impostos por Netanyahu. Segundo o Primeiro-Ministro, a presença das forças do Hezbollah terá de ser repelida das zonas fronteiriças com Israel para permitir o retorno de mais de 60 mil habitantes do norte às suas casas e que para isso será necessário criar uma zona neutral até ao rio Litani, o que implica forçadamente deslocar milhares de Libaneses das suas residências por tempo indefinido. Esta proposta tem sido rejeitada pelo Hezbollah, que insiste em continuar operações militares contra Israel até haver um cessar-fogo em Gaza.

Estas operações, que territorialmente foram expandidas até Haifa e Nazaré desde sábado passado, têm incluído bombardeamentos constantes contra infraestruturas militares Israelitas através de mísseis de
longo alcance e drones suicidas.

Como resposta aos eventos de segunda-feira, o Pentágono anunciou que os EUA enviarão tropas Norte-Americanas para o Médio Oriente, para organizar evacuações dos seus cidadãos para fora do Líbano e também para alegadamente controlar a escalada de violência militar.

Está ainda planeada para esta terça-feira uma visita diplomática de oficiais do Qatar ao Líbano para tentar estabelecer termos para um cessar-fogo entre o Hezbollah e Israel. Contudo, tanto Netanyahu como o
Hezbollah aparecem irredutíveis nos respetivos objetivos estratégicos e será mais provável uma guerra total do que qualquer possibilidade de paz na região.

João Sousa, a partir de Beirute

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