Líbano: Conferência de imprensa norte-americana causa escândalo diplomático

Esta terça-feira, Beirute foi visitada por uma delegação diplomática dos EUA composta por elevados representantes norte-americanos como os senadores Lindsey Graham e Jeanne Shaeen, e os enviados especiais Tom Barrack e Morgan Ortagus para fazer o ponto da situação nas negociações de paz entre o Líbano e Israel, e o desarmamento do Hezbollah.

A comitiva deu uma conferência de imprensa a dezenas de repórteres Libaneses, numa sessão marcada por discursos incisivos por parte dos representantes norte-americanos. Lindsey Graham mostrou-se irredutível naquilo que Israel poderá fazer num futuro próximo (escalar as agressões contra o Líbano ou retirar as suas forças do território Libanês) enquanto o Hezbollah não for completamente desarmado, rematando que enquanto este ponto permanecer sem resolução efetiva, não poderá haver diálogo diplomático entre as duas nações.

Jeanne Shaeen, por seu lado, realçou o fato dos EUA apoiarem incondicionalmente o Líbano e que é do interesse de todos os protagonistas que sejam reunidas as condições para que o país se torne seguro, estável e próspero. Morgan Ortagus, diplomata, analista política e predecessora de Tom Barrack nas mediações diplomáticas entre Israel e o Líbano, limitou-se a responder a uma única questão dos jornalistas sobre a retirada das forças Israelitas do sul Libanês, indicando que Israel está aberto a tomar pequenos passos no sentido de gradualmente sair do Líbano, mas que estas ações dependem exclusivamente do progresso do desarmamento do Hezbollah.

Contudo, a conferência foi marcada por um momento controverso quando Tom Barrack, visivelmente frustrado com as intervenções dos repórteres que tentavam colocar questões em simultâneo, exigiu silêncio na sala e ameaçou sair se o ambiente na sessão se tornasse “caótico e animalístico”. Barrack continuou, afirmando que para prosseguir, os jornalistas teriam de se comportar de forma “civilizada, gentil e tolerante”, sugerindo que o problema no Médio Oriente reside na ausência destes valores.

O enviado especial continuou com as entrevistas, onde salientou que para que o Líbano possa recuperar economicamente, é necessário substituir a influência do Irão com os investimentos sauditas, cenário apenas possível após o desmantelamento armado do Hezbollah.

Apesar do resto da conferência de imprensa ter decorrido de forma cordata, as expressões usadas por Barrack causaram uma onda de ultraje no público libanês, especialmente nas redes sociais, onde centenas de vídeos foram partilhados com milhares de comentários a criticar o juízo de valor de Barrack para com os jornalistas libaneses e pessoas do Médio Oriente. Muitos realçaram a arrogância e insensibilidade do enviado, de quem se esperava tacto diplomático, e outros exigiram que o governo libanês tomasse uma posição incisiva em condenar as afirmações de Barrack.

Entretanto, o Sindicato de Editores de Imprensa Libanesa emitiu um comunicado oficial a exigir um pedido formal de desculpas por parte de Tom Barrack, classificando as suas afirmações como absolutamente inaceitáveis e repreensíveis, para lá dos limites da decência e da diplomacia. O Sindicato ameaçou ainda instar os órgãos de comunicação social libaneses a boicotar futuras visitas do enviado caso não haja um pedido de desculpas apresentado oficialmente.

A comitiva norte-americana permanecerá no Líbano durante mais um dia, onde é prevista uma visita ao sul libanês antes de viajar até à Síria para prosseguir com negociações em Damasco.

João Sousa, a partir de Beirute para a e-Global

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