Trump corta relações com Netanyahu antes de visitar o Médio Oriente

Segundo fontes da Casa Branca, o executivo de Donald Trump terá decidido cortar qualquer forma de contacto direto com o primeiro-ministro Israelita Benjamin Netanyahu, dias antes da sua visita ao Médio Oriente.

Esta notícia deixou Tel Aviv em estado de choque, dado que os EUA são os maiores aliados de Israel no plano internacional e um corte de relações poderá representar um risco incalculável para os planos de Israel, que continua a travar batalhas em várias frentes, nomeadamente em Gaza, Síria, Líbano e no Iémen.

Apesar de Netanyahu ter sido apanhado de surpresa com esta decisão, as relações entre Washington e Tel Aviv têm-se deteriorado desde algum tempo; na semana passada, e no rescaldo dos confrontos bélicos entre as forças Israelitas e os Houthis, Trump anunciou que tinha acordado uma trégua temporária com os militantes Iemenitas se estes garantissem que não atacariam os navios norte-americanos no Mar Vermelho, visando a segurança marítima regional em detrimento da proteção a Israel. Este acordo foi efetuado sem o conhecimento ou aval de Netanyahu, e constituiu uma quebra de confiança do governo Israelita na figura de Trump, com a agravante dos Houthis terem prometido continuar a atacar Israel, apesar da trégua com Washington. Esta promessa foi confirmada após uma tentativa de atingir Tel Aviv com um míssil balístico na tarde de sexta-feira, que entretanto foi abatido pelas forças de Israelitas sem causar feridos ou danos materiais na capital.

Há, no entanto, outros pontos igualmente preocupantes na deterioração das relações entre Washington e Tel Aviv. Após a sua última visita à Casa Branca em Abril, Netanyahu contava receber apoio militar de Trump para atacar diretamente o Irão, especificamente as suas infraestruturas nucleares. Contudo, o Presidente norte-americano anunciou que iria retomar negociações com Teerão através de Omã, que continua a servir de intermediário diplomático entre as duas nações.

O outro ponto essencial na tensão entre Trump e Netanyahu reside na solução definitiva da guerra em Gaza; enquanto o primeiro-ministro Israelita insiste em expandir as hostilidades na Faixa com o objetivo de ocupar o território permanentemente, Trump prefere uma via pacífica, que inclui a entrada de ajuda humanitária para assistir a população local, que tem estado exposta a fome extrema e a falta de medicamentos, e num futuro próximo avançar para uma solução de criar dois estados com o intuito de estabelecer um Estado Palestiniano, oficialmente reconhecido por Washington.

Netanyahu tem também antecipado problemas adicionais na região, especialmente após Trump ter prometido retirar centenas de tropas norte-americanas das suas bases na Síria, o que poderá significar uma influência crescente da Turquia (que entretanto planeia estabelecer 7 bases militares em território Sírio) e um risco de segurança consequente para Tel Aviv. Desde a queda do regime do ex-presidente Sírio Bashar al-Assad no fim do ano passado, Netanyahu e o seu executivo têm contemplado o desmantelamento do país e possível anexação de território adicional para além dos Montes Golã, e reduzir o poder administrativo de Damasco. 

Netanyahu tem ainda um problema acrescido, que assenta no fato de Trump sentir que tem estado a ser ‘manipulado’ pelo político Israelita no adiamento dos planos de normalização com a Arábia Saudita e outros países do Golfo. Para Trump, estabelecer acordos de normalização é absolutamente essencial para garantir estabilidade e paz na região; para Riade, estes acordos só serão concretizáveis após o fim da guerra em Gaza e a criação de uma solução de dois estados. Contudo, Netanyahu vê nestas condições um impasse, pois o fim das hostilidades com o Hamas em Gaza e a criação de um Estado Palestiniano representam uma rutura definitiva com o seu executivo político e um fracasso nos planos de alterar a face do Médio Oriente, promessa feita pelo próprio Netanyahu em Outubro de 2023.

A visita de Trump no Golfo está marcada para dia 13 de Maio, e incluirá três países: Arábia Saudita, Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Segundo analistas geopolíticos, esta agenda parece estar mais alinhada com interesses económicos e menos com planos bélicos na região, contrariando os desejos de Netanyahu, que não fará parte das negociações na próxima semana. Contudo, Netanyahu poderá ter um trunfo na manga: Jared Kushner, diretor do Gabinete de Inovação Americano e também o genro de Donald Trump, tem servido informalmente de conselheiro do Presidente. Kushner já tinha sido essencial para reforçar relações com vários países no Médio Oriente durante o primeiro mandato de Trump, incluindo a formalização dos Acordos de Abraão (que culminaram no reconhecimento da soberania de Israel por parte do Bahrain e dos Emirados Árabes Unidos em Setembro de 2020). Kushner é um defensor acérrimo do Estado Israelita e alguém que poderá atenuar as tensões entre Trump e Netanyahu. Porém, é improvável que Kushner viaje com a comitiva norte-americana até ao Golfo na próxima semana.

João Sousa, a partir do Líbano para a e-Global

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