Pela primeira vez na história, a obesidade ultrapassou o baixo peso como a forma mais comum de má nutrição entre crianças e adolescentes em idade escolar, revelou a UNICEF num novo relatório publicado esta terça-feira (9 de setembro de 2025).
Atualmente, uma em cada dez crianças entre os 5 e os 19 anos – cerca de 188 milhões em todo o mundo – vive com obesidade, aumentando significativamente o risco de desenvolver doenças crónicas como diabetes tipo 2, problemas cardíacos e determinados tipos de cancro.
O relatório Feeding Profit: How Food Environments are Failing Children baseia-se em dados de mais de 190 países e mostra uma viragem alarmante: desde o ano 2000, a percentagem de crianças com baixo peso entre os 5 e 19 anos caiu de quase 13% para 9,2%, mas a obesidade triplicou, de 3% para 9,4%. Hoje, a obesidade supera o baixo peso em todas as regiões, exceto na África Subsariana e no Sul da Ásia.
O problema é particularmente grave nas Ilhas do Pacífico, onde dietas tradicionais foram substituídas por alimentos importados de baixo custo e elevado teor calórico. Nos países de rendimento elevado a situação também preocupa: 27% das crianças no Chile e 21% nos Estados Unidos e nos Emirados Árabes Unidos já sofrem de obesidade. Globalmente, um em cada cinco menores de 19 anos – cerca de 391 milhões – está acima do peso, quase metade com diagnóstico de obesidade.
A UNICEF aponta a influência do marketing agressivo da indústria alimentar como fator central. Numa sondagem com 64 mil jovens de 170 países, 75% afirmaram ter visto publicidade a refrigerantes, snacks ou fast food na última semana; 60% disseram que isso os levou a querer consumir esses produtos. Mesmo em países em conflito, 68% dos jovens reportaram exposição a este tipo de anúncios.
As consequências económicas são enormes: até 2035, o custo global associado ao excesso de peso e à obesidade poderá ultrapassar os 4 biliões de dólares anuais. No Peru, por exemplo, os problemas de saúde relacionados com obesidade poderão custar mais de 210 mil milhões de dólares numa geração.
Apesar do cenário preocupante, alguns governos estão a agir. No México – onde bebidas açucaradas e ultraprocessados representam 40% das calorias diárias das crianças – a venda destes produtos foi proibida nas escolas, beneficiando mais de 34 milhões de alunos.
A UNICEF apela a reformas globais urgentes: rotulagem obrigatória, restrições à publicidade e impostos sobre produtos não saudáveis; proibição de junk food nas escolas; reforço dos programas de proteção social; e mecanismos para travar a interferência da indústria nas políticas públicas.