Foto: divulgação/Luísa Ferreira
A escritora portuguesa Lídia Jorge foi distinguida, esta quinta-feira, 2 de julho, com o “Prémio Camões 2026”, atribuído pelos Governos de Portugal e do Brasil, após deliberação unânime do júri reunido por videoconferência, confirmando a atribuição do mais prestigiado prémio da literatura em língua portuguesa, no valor de 100 mil euros, acompanhado de um diploma assinado pelos chefes de Estado de Portugal e do Brasil.
Lídia Jorge torna-se, assim, a mais recente vencedora do Prémio Camões, distinção criada em 1988 pelos Governos de Portugal e do Brasil para reconhecer autores cujo conjunto da obra tenha contribuído de forma decisiva para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa.
Na ata da reunião, o júri justificou a escolha por unanimidade, destacando que, desde “O Dia dos Prodígios” (1980), “o diversificado conjunto da obra de Lídia Jorge contribui para enriquecer o património literário e cívico-cultural da língua portuguesa”, salientando ainda “A Costa dos Murmúrios” (1988), obra que “desconstrói as versões da guerra colonial sob a perspetiva de uma mulher”, e Misericórdia (2022), romance que aborda “a velhice, a urgência da vida, a resistência ao fim”.
O documento acrescenta que a sua escrita, “marcada por uma prosa poética densa”, aborda “o passado ditatorial de Portugal, a condição feminina, o impacto das transformações históricas na vida quotidiana, o significado das revoluções, a emigração, as tensões entre a sociedade moderna e pós-moderna, os conflitos entre gerações, as ruturas familiares”, concluindo que, “por todos estes motivos, o júri considerou, unanimemente, Lídia Jorge merecedora do Prémio Camões 2026”.
O presidente da República de Portugal, António José Seguro, na nota oficial divulgada após o anúncio, frisou receber a distinção “com muita alegria e honra”, salientando que Lídia Jorge “construiu uma polifonia deslumbrante e trágica, comovente e cheia de inteligência sobre a natureza humana e a condição portuguesa”.
O chefe de Estado destacou igualmente que a autora “abriu caminhos singulares na nossa literatura e na forma de pensar Portugal, a nossa sensibilidade, a vida das mulheres portuguesas e a memória de eventos marcantes para a história recente do nosso País”, considerando que “a sua voz é, neste momento, a nossa voz”.
António José Seguro recordou ainda que a escritora já foi distinguida com as Ordens Militares de Sant’Iago da Espada e do Infante D. Henrique, bem como com numerosos prémios literários nacionais e internacionais.
Também o Governo brasileiro saudou a atribuição do galardão. A ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes, afirmou que “a escolha de Lídia Jorge para o ‘Prémio Camões de Literatura 2026’ celebra uma das grandes vozes da literatura em língua portuguesa, cuja obra reafirma o poder da escrita para preservar memórias, ampliar horizontes e promover reflexões sobre a condição humana”.
A responsável acrescentou que “o Prémio Camões simboliza a riqueza da nossa língua comum e o compromisso permanente do Brasil e dos países lusófonos com a valorização da cultura, da literatura e do diálogo entre os povos”, defendendo que “celebrar Lídia Jorge é também reconhecer a força transformadora da palavra e da criação artística na construção de sociedades mais democráticas, diversas e humanas”.
Por sua vez, o presidente da Fundação Biblioteca Nacional do Brasil, Marco Lucchesi, destacou a dimensão literária e cívica da autora, afirmando que “Lídia Jorge merece todo reconhecimento” e que “vive no coração do presente”.
De igual modo, sublinhou que a escritora “possui uma consciência vigilante, crítica diante de um passado colonial e de todas as práticas de injustiça, na defesa de um largo estatuto de emancipação”, considerando tratar-se de “uma obra vasta, de extrema riqueza de abordagem e de géneros literários” e afirmando que “é uma das glórias da língua portuguesa”.
Natural de Boliqueime, no Algarve, onde nasceu a 18 de junho de 1946, Lídia Jorge licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. Durante a Guerra Colonial Portuguesa viveu em Angola e Moçambique, experiência que marcou profundamente a sua produção literária. Desde a publicação de “O Dia dos Prodígios”, em 1980, consolidou-se como uma das principais figuras da literatura portuguesa contemporânea, construindo uma obra traduzida em diversas línguas e distinguida com prémios como o Prémio Pessoa, o Médicis Étranger e o Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia. Entre os seus títulos mais reconhecidos encontram-se “A Costa dos Murmúrios” (1988), “O Vale da Paixão” (1998) e “Misericórdia” (2022).
Instituído em 1988, o Prémio Camões distingue, anualmente, um autor pelo conjunto da sua obra e constitui o mais elevado reconhecimento literário da língua portuguesa. O júri desta edição integrou José Carlos Seabra Pereira e Ana Mafalda Leite, por Portugal; Lucia Santaella e José Ribamar Bessa Freire, pelo Brasil; Lopito Feijó, por Angola; e Odete Semedo, pela Guiné-Bissau.
Com a distinção agora anunciada, Lídia Jorge junta-se à lista de grandes nomes da literatura lusófona anteriormente premiados, entre os quais José Saramago, Sophia de Mello Breyner Andresen, António Lobo Antunes, Mia Couto, Germano Almeida, Paulina Chiziane, Adélia Prado e Ana Paula Tavares.
Ígor Lopes