Cabinda: Activistas repudiam cancelamento de manifestação e denunciam sabotagem

Um grupo de activistas políticos, cívicos e sociais de Cabinda emitiu uma carta aberta dirigida à imprensa, manifestando o seu repúdio pelo cancelamento da manifestação convocada pela Associação para o Desenvolvimento da Cultura dos Direitos Humanos (ADCDH), inicialmente agendada para o passado sábado, 2 de Agosto.

Na missiva, os signatários criticam duramente a liderança da ADCDH, acusando-a de ter mobilizado o povo de Cabinda para uma acção que, alegadamente, já se sabia condenada ao fracasso. Os activistas consideram que o tema da manifestação já tinha sido “corrigido” pelas autoridades angolanas na sequência de pressões de “vozes críticas da sociedade política e cívica de Cabinda”.

O presidente da ADCDH, Alexandre Kuanga Nsito, é directamente visado no documento. Os subscritores denunciam alegadas ligações com o Governo Provincial e o MPLA, que consideram comprometer a integridade da sua acção como activista. Referem que Nsito terá mantido encontros “à porta fechada” com a governadora Suzana de Abreu, na sede do comité provincial do partido no poder, e mais tarde com Norberto Garcia, responsável pelo Gabinete de Acção Psicológica da Presidência da República, em Luanda.

Estes encontros, segundo os activistas, tiveram como pretexto a obtenção de crédito agrícola para uma cooperativa liderada por Nsito. Contudo, apontam que nem a sede do MPLA, nem o gabinete presidencial em causa são instituições vocacionadas para concessão de crédito, sugerindo que o objectivo real teria sido outro. “Conhecendo a astúcia do regime do MPLA”, afirmam, esta aproximação em plena semana da manifestação levanta “muitas suspeitas”.

A carta revela ainda que decorre um processo interno na própria ADCDH visando a destituição de Nsito da presidência da organização, devido a suspeitas recorrentes de “corrupção e traição”.

Os activistas consideram que o cancelamento da manifestação constituiu um acto de “má-fé”, uma tentativa deliberada de sabotagem à luta séria pelo direito à autodeterminação de Cabinda. Acusam a ADCDH de ter colocado em risco a segurança dos activistas e da população local, num contexto político-militar já marcado por vigilância e repressão.

“Todas as vozes críticas são controladas, espionadas dia e noite pelo aparelho de segurança do regime do MPLA”, lê-se na carta. Neste sentido, os signatários denunciam uma tentativa de “mercantilização” da causa cabindesa, afirmando que “o povo de Cabinda não é uma mercadoria”.

A carta termina com um apelo à integridade dos actores do activismo cívico em Cabinda, rejeitando oportunismos e alertando para a necessidade de uma coordenação mais rigorosa entre as várias vozes do movimento. Os subscritores afirmam que, doravante, todas as acções públicas que envolvam mobilização popular deverão ser organizadas com o “respaldo e consentimento” de todas as forças pró-autodeterminação, para garantir a “credibilidade, ordem e inclusão” do movimento.

A luta do povo cabindês é descrita como “sagrada, nobre e justa” e, por isso, exige “comportamentos íntegros, nobres e dignos” por parte dos seus representantes.

A carta foi assinada por mais de vinte activistas, entre os quais se encontram José da Costa Lembe, Muguilo Fernando, Clemente Cuilo, Maurício Gimbi, Boaventura Benjamin (Jeovany Ventura), António Mabiala (Leoton Mabiala), André Lelo Bonzela, Victor Lembe Baza, José Sita, entre outros.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subescreve a Newsletter

Artigos Relacionados

Segunda edição do “Congresso Metamorfose da Alma” reúne luso-brasileiros em Lisboa este fim de semana

Imagem: Tati Pinheiro, responsável pela iniciativa. Foto: Agência...

0

Cabinda aposta em Macky Sall na ONU e busca reconhecimento internacional

Dois meses após a proclamação unilateral da independência...

1

Evento em Bruxelas transforma conferência em proclamação da Independência de Cabinda

Inicialmente previsto como uma conferência de imprensa para...

2