O Governo de Cabo Verde apresentou oficialmente o projeto de construção do Hospital Nacional de Cabo Verde, uma infraestrutura considerada estratégica para a reforma do sistema de saúde. O novo hospital será erguido de raiz na cidade da Praia, em Achada Limpo perto do quartel de Achada Mato, e pretende tornar-se uma unidade de referência nacional e sub-regional, equipada com tecnologia de ponta e vocacionada para a formação médica, investigação científica e turismo de saúde.
O Primeiro-Ministro Ulisses Correia e Silva afirmou que o novo hospital simboliza um compromisso com o futuro da saúde no país. “Cabo Verde vai ter na Praia o seu primeiro hospital construído de raiz depois da Independência. Um hospital especializado, moderno, equipado com tecnologia avançada e recursos humanos qualificados e especializados”, declarou o chefe do Governo, acrescentando que a infraestrutura será “um espaço de inovação, qualificação e acesso à medicina mais avançada, incluindo a inteligência artificial”.
Segundo o Ministro da Saúde, Jorge Figueiredo, o objetivo principal é reduzir substancialmente as evacuações externas e melhorar a resposta a doenças que exigem cuidados altamente especializados. O governante explicou que o hospital terá duas formas principais de funcionamento: atendimento de emergência e consultas programadas, com base em protocolos definidos entre os centros de saúde, hospitais regionais, hospitais centrais e o futuro hospital nacional. “Hoje temos especialidades em falta e por isso o hospital vai começar por responder às áreas de maior necessidade, como oncologia e cardiologia, e depois será expandido para neurocirurgia, orto-traumatologia, cirurgia vascular e outras”, disse Figueiredo.
O hospital será construído em fases. Na primeira fase, a infraestrutura terá 20.000 m² (2 hectares), com 44 camas, distribuídas entre cardiologia (15), oncologia (10), internamento geral (7) e cuidados intensivos (12). Terá ainda 20 gabinetes de consulta, 4 blocos cirúrgicos, laboratório, angiografia, floroscopia, hospital de dia e equipamentos de diagnóstico avançado como TAC, ressonância magnética e mamografia. Na segunda fase, o hospital será ampliado em mais 10.000 m², totalizando 30.000 m², com 74 camas adicionais. O número total de camas chegará a 118, incluindo espaços para internamento geral, cirurgias eletivas, cuidados intensivos e até 10 camas privadas para pacientes que desejem atendimento diferenciado, ajudando a cofinanciar o sistema público.
O investimento estimado para a primeira fase é de 180 milhões de euros, incluindo construção e aquisição de equipamentos. A gestão do hospital será feita através de uma parceria público-privada (PPP), envolvendo o Instituto Nacional da Previdência Social (INPS), bancos multilaterais e fundos de investimento. Segundo o Primeiro-Ministro, a sustentabilidade do projeto foi cuidadosamente estudada. “Os cálculos estão feitos, não apenas para a construção, mas também para garantir um funcionamento de qualidade. Estamos a falar de um hospital com exigência ao nível dos melhores do mundo”, afirmou. A gestão será estruturada com critérios rigorosos de desempenho clínico, financeiro e técnico. “Vamos garantir uma gestão com exigência máxima, aplicando critérios semelhantes aos dos hospitais de referência internacional”, disse.
O hospital não será apenas uma estrutura de cuidados clínicos, mas também um espaço de formação médica avançada e inovação tecnológica. Júlio Teixeira, presidente da Associação dos Médicos Cabo-verdianos nos Estados Unidos, participou por videoconferência e destacou a importância do projeto para a integração da diáspora no desenvolvimento da medicina nacional. “O novo hospital tem de ser mais do que um edifício. Ele precisa ser um centro de excelência, com profissionais preparados para trabalhar em contextos globais, usar novas tecnologias e comunicar com o mundo”, afirmou. O médico apelou ainda à criação de sinergias entre o hospital e as escolas médicas internacionais, como forma de formar quadros especializados e reter talentos.
O estudo de viabilidade técnica e financeira está finalizado e foi aprovado após quase dois anos de trabalho com as entidades do setor da saúde, incluindo a Ordem dos Médicos e os hospitais centrais. O concurso internacional para construção será lançado em setembro de 2025, com avaliação de propostas até dezembro. Segundo o Governo, a construção terá início no primeiro semestre de 2026 e já existem empresas pré-selecionadas interessadas em integrar o processo.
A construção do Hospital Nacional de Cabo Verde representa um marco histórico na política pública de saúde do país. Mais do que uma resposta a necessidades médicas imediatas, o Governo vê o projeto como um passo estruturante para garantir soberania sanitária, atrair investimento estrangeiro e afirmar Cabo Verde como polo de referência na medicina africana. “Estamos a fazer nascer o hospital que o país merece, com base em trabalho sério, estudo, estratégia e visão”, concluiu o Primeiro-Ministro.
Anícia Cabral – correspondente