Cabo Verde: “Vim da pobreza e sei o que é dormir com fome”, Amândio Vicente quer romper com o sistema e levar a voz dos esquecidos ao Parlamento

Num discurso marcado por memórias duras, críticas ao sistema político e apelos constantes à justiça social, Amândio Barbosa Vicente, líder e cabeça de lista do Partido Popular por Santiago Sul, apresenta-se às eleições legislativas como o rosto de uma candidatura que pretende dar voz aos que, segundo afirma, “foram abandonados pelo Estado”.

Entre recordações da infância pobre no Tarrafal, denúncias sobre desigualdades sociais e críticas à governação do país, o candidato fala sem rodeios sobre aquilo que considera ser a degradação das condições de vida dos cabo-verdianos. Ao longo da entrevista, alterna momentos de indignação política com relatos profundamente pessoais, numa narrativa construída em torno da luta, da superação e da necessidade de mudança.

“Eu sei o que é pobreza. Sei o que é dormir sem comer. Sei o que é mudar a cama de um lado para outro dentro de casa porque a chuva entrava pelo teto”, afirmou, num dos momentos mais marcantes da conversa.

Natural do Tarrafal de Santiago, Amândio Vicente recorda uma infância vivida em condições extremamente difíceis. Cresceu numa realidade onde, segundo descreve, faltava quase tudo. “Naquela época, muita gente nem sapato tinha”, contou, explicando que foi precisamente essa vivência que moldou a sua consciência social e a sua visão política.

Ainda jovem, deixou o Tarrafal rumo à Praia, numa viagem que guarda até hoje na memória. Segundo explicou, chegou à capital na carroçaria de um camião, numa altura em que procurava apenas uma oportunidade para estudar, trabalhar e mudar de vida.

A caminhada, no entanto, esteve longe de ser fácil. Começou a trabalhar na construção civil em 1981, como servente de pedreiro, ao mesmo tempo que frequentava aulas à noite. “Trabalhava de dia na obra e estudava à noite. A minha vida sempre foi feita de luta”, afirmou.

Ao recordar esse percurso, faz questão de sublinhar que nada lhe foi oferecido. Define-se como “um self-made man”, alguém que construiu o próprio caminho através do esforço pessoal e da persistência. “Tudo o que consegui foi com trabalho. Nunca vivi à custa do Estado nem usei a política para enriquecer”, declarou.

Com o passar dos anos, conseguiu prosseguir os estudos superiores, formando-se em Finanças no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Portugal. Mais tarde, construiu carreira nos Correios de Cabo Verde, onde desempenhou funções de auditor interno, diretor de planeamento e técnico superior.

Paralelamente, passou também pelo ensino, lecionando em instituições como a Escola Técnica, o ICE e a Universidade de Cabo Verde. Ainda assim, garante que o envolvimento político acabou por fechar-lhe várias portas profissionais. “Depois que entrei na política, praticamente deixei de conseguir trabalhar normalmente em Cabo Verde”, afirmou.

Apesar disso, diz não se arrepender da escolha. Pelo contrário. Segundo explicou, foi precisamente o descontentamento com a forma como o país vem sendo governado que o levou a aprofundar a intervenção política. “Entrei na política por desânimo e frustração com a gestão da minha terra”, declarou.

O candidato afirma que, ao longo dos anos, acompanhou vários processos e dossiês que, na sua visão, revelavam má gestão dos recursos públicos, desvios de prioridades e decisões tomadas longe dos interesses da população.

“Eu sou contribuinte. Pago impostos. Não posso ficar calado quando vejo dinheiro público a ser mal utilizado”, disse.

Foi nesse contexto que surgiu o Partido Popular, força política fundada pelo próprio Amândio Vicente. Embora reconheça as dificuldades enfrentadas pelos pequenos partidos em Cabo Verde, insiste que o objetivo nunca foi procurar privilégios ou benefícios pessoais. “Nós não estamos na política atrás de riqueza. Já somos homens de meia-idade, com família, casa e carro. O que nos move é servir o país”, afirmou.

Ao longo da entrevista ao Jornal E-Global, o líder do Partido Popular traça um retrato duro da situação social cabo-verdiana. Segundo ele, a população enfrenta atualmente enormes dificuldades económicas, agravadas pelo elevado custo de vida, pelos baixos salários e pela crescente sensação de insegurança, “O salário da maioria dos cabo-verdianos já não garante uma vida digna”.

Nas ruas da Praia, sobretudo nas zonas periféricas, diz encontrar diariamente sinais claros desse sofrimento social. “Muita gente já perdeu a esperança no voto porque sente que a sua vida nunca melhora”, pois durante a campanha, relata ter ouvido inúmeras queixas relacionadas com pobreza, desemprego, lentidão da justiça e falta de oportunidades.

Entre os relatos que mais o marcaram, destaca a situação da segurança pública em alguns bairros da capital. Segundo afirmou, visitou recentemente localidades onde pequenos comerciantes já atendem clientes atrás de grades de ferro por medo da criminalidade, “hoje há famílias honestas que vivem praticamente presas dentro das próprias casas”, afirmou.

O candidato considera que a criminalidade juvenil é um dos maiores desafios do país e defende uma intervenção mais firme do Estado e das famílias. Para Amândio Vicente, os pais precisam reassumir o papel de acompanhamento e educação dos filhos, mas o Estado também não pode continuar passivo perante o aumento da delinquência. Nesse contexto, admite ser necessário abrir um debate nacional sobre a redução da idade de responsabilidade criminal para os 16 anos, “é uma discussão difícil, mas não podemos continuar a ignorar a gravidade do problema”.

Ao mesmo tempo, sublinha que o sistema prisional deve funcionar não apenas como espaço de punição, mas também de verdadeira reabilitação social.

No campo económico, Amândio Vicente critica fortemente o modelo económico atual do país, que considera excessivamente dependente do setor dos serviços. Para ele, Cabo Verde precisa urgentemente de apostar mais na produção nacional.

“Não podemos viver apenas de serviços. Precisamos fortalecer a agricultura, a pesca e avançar para a industrialização”, afirmou.

Segundo explicou, a criação de emprego sustentável depende diretamente dessa transformação estrutural da economia cabo-verdiana. A formação profissional foi igualmente alvo de críticas. Embora reconheça a importância da capacitação dos jovens, considera que muitos programas acabam por não produzir resultados concretos devido à falta de mercado de trabalho.

“De que vale formar jovens se depois não existem empregos para eles?”, questionou.

Outra preocupação central da candidatura prende-se com a habitação. O líder do Partido Popular acusa empresas privadas e promotores imobiliários de estarem a transformar o acesso à habitação num privilégio inacessível para grande parte da população, criticando os elevados preços dos terrenos urbanos e acusou o sistema de promover aquilo que chamou de “capitalismo selvagem”.

“Terrenos que pertencem ao povo cabo-verdiano estão a ser vendidos a preços impossíveis para a maioria das famílias”, denunciou.

Na área da saúde, considera igualmente preocupante o facto de muitos cabo-verdianos continuarem obrigados a procurar tratamentos médicos no exterior, sobretudo no Senegal e em Portugal.

“Não podemos aceitar que doenças relativamente simples continuem sem resposta adequada no nosso sistema de saúde”, afirmou.

Ao longo da conversa, Amândio Vicente insistiu várias vezes na necessidade de reforçar o controlo democrático sobre o Governo. Para o candidato, as maiorias absolutas acabaram por fragilizar o Parlamento e reduzir a fiscalização política. Enfatiza que, “as maiorias absolutas são perigosas porque eliminam o controlo sobre o Governo”.

Defende, por isso, um Parlamento mais plural, com presença reforçada de partidos alternativos capazes de equilibrar o debate político e representar setores da sociedade que, segundo diz, continuam esquecidos.

Ainda assim, reconhece que o caminho do Partido Popular é difícil. Sem grandes recursos financeiros, estrutura partidária limitada e reduzido número de militantes, admite que o crescimento político será gradual, “o caminho faz-se passo a passo. Se conseguirmos eleger um ou dois deputados, já será uma porta aberta para o futuro”, afirmou.

Apesar dos desafios, garante sentir uma receção positiva por parte da população durante a campanha. Segundo disse, muitas pessoas demonstram identificação com a mensagem do partido, sobretudo nos bairros mais afetados pelas dificuldades económicas e sociais.

Na reta final da entrevista, Amândio Vicente voltou a recorrer à própria história de vida para justificar a sua entrada na política. Disse que a pobreza lhe ensinou a compreender o sofrimento humano e a importância das decisões políticas no destino das pessoas. “A política pode destruir vidas, mas também pode transformar vidas. É por isso que estou aqui”, declarou.

Assim, Amândio Vicente apresenta-se às legislativas como um candidato moldado pela pobreza, pela luta e pela crítica ao sistema político tradicional, defendendo uma governação mais transparente, mais próxima das populações e centrada na justiça social, no combate às desigualdades e na recuperação da dignidade das famílias cabo-verdianas.

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