“Viajar para me encontrar”: Elzo Rodrigues transforma travessia pelas ilhas num manifesto de identidade cabo-verdiana

Entre sonhos, desafios e encontros, o jovem percorre Cabo Verde para revelar um país invisível e inspirar uma nova geração a redescobrir as suas raízes.

Cidade da Praia, Cabo Verde – Mais do que uma simples prática de lazer, viajar tornou-se, para Elzo Rodrigues, um verdadeiro exercício de autoconhecimento, pertença e missão social. Natural de Santo Antão, o jovem concluiu um marco histórico pessoal: a exploração de todas as dez ilhas de Cabo Verde. Através desta jornada, Elzo tem vindo a descobrir-se a si próprio enquanto revela, simultaneamente, um país profundo, autêntico e ainda pouco explorado.

Logo à partida, Elzo deixa evidente que a viagem, para si, é inseparável da sua identidade. Em entrevista ao jornal E-Global, afirma que: “Viajar para mim é encontro”, explicando que cada deslocação lhe permite aproximar-se da sua essência. Com efeito, a sua ligação às origens é constante, uma vez que, mesmo estando longe, considera que leva sempre consigo a sua terra. Nesse sentido, recorda que cresceu em Santo Antão, rodeado por montanhas, trilhas e natureza, elementos que, segundo diz, continuam a moldar a sua forma de ver o mundo.

Assim, com o conhecimento profundo adquirido ao carimbar o passaporte em todo o arquipélago, o seu maior sonho ganha agora um contorno mais específico e simbólico: realizar uma travessia integral e contínua, partindo da sua ilha natal, Santo Antão, até à Brava, apenas com uma mochila às costas. Embora já conheça cada uma das ilhas individualmente, sublinha que este projeto de travessia unificada continua vivo e representa a derradeira meta pessoal.

Além disso, o jovem destaca que viajar pelas ilhas é, acima de tudo, um processo de conexão e reconexão. Em discurso indireto, refere que cada experiência o liga não só a si próprio, mas também à história coletiva e às vivências de outros cabo-verdianos. Por conseguinte, defende que cada ilha possui uma identidade própria, com realidades distintas e riquezas únicas.

Aliás, Elzo chama a atenção para a existência de um “Cabo Verde invisível”, composto por lugares pouco conhecidos, comunidades remotas e histórias que raramente ganham visibilidade. Segundo afirma, todos os cabo-verdianos deveriam explorar esse lado do país, de modo a compreenderem melhor a sua diversidade e autenticidade. Apesar dessa visão abrangente, reconhece que Santo Antão continua a ser o seu porto seguro. “É onde volto para recarregar energia”, afirmou, ainda que garanta sentir-se pertencente a todas as ilhas, uma vez que vive cada experiência com intensidade e presença.

No plano pessoal, Elzo assume que as viagens provocaram uma transformação profunda. Se antes se via apenas como um sonhador, hoje considera-se um contador de histórias e um agente de inspiração. Conforme explicou, aprendeu a valorizar o simples e a reconhecer formas de riqueza que vão além do material. “Vejo coisas que não são visíveis”, disse, reforçando a ideia de um olhar mais sensível e atento.

Contudo, essa jornada não está isenta de dificuldades. O jovem admite que enfrenta, com frequência, momentos de dúvida e vontade de desistir. Ainda assim, sublinha que encontra sempre forças para continuar, seja através de pessoas, situações ou pequenas inspirações do quotidiano. Dessa forma, evidencia uma resiliência que considera fundamental no seu percurso.

De igual modo, os encontros humanos surgem como um dos aspetos mais marcantes das suas viagens. Em discurso indireto, relata que já conheceu pessoas simples, muitas vezes com vidas difíceis, mas dotadas de uma sabedoria e generosidade transformadoras. Um exemplo significativo ocorreu numa pensão, onde o proprietário confiava plenamente nos hóspedes, permitindo-lhes consumir produtos e registar o consumo num caderno, sem qualquer controlo direto. Essa experiência, segundo Elzo, alterou a sua perceção sobre confiança e honestidade.

Por outro lado, também reconhece a importância dos desafios e dos limites. Embora afirme não ter vivido situações extremamente difíceis, recorda momentos de algum perigo, sobretudo em trilhas onde enfrentou quedas de pedras. Nessas ocasiões, percebeu a necessidade de respeitar a natureza e de reconhecer os próprios limites, defendendo que nem todos os percursos devem ser feitos sem preparação adequada.

Entretanto, Elzo também reflete sobre o futuro do país, manifestando preocupação com a forma como Cabo Verde encara o turismo. Na sua opinião, o arquipélago ainda não está totalmente preparado, sendo essencial que os próprios cabo-verdianos conheçam melhor o seu território antes de o promoverem externamente.

Num registo mais íntimo, o jovem aborda ainda a questão da solidão e do silêncio. Contrariamente ao que se poderia esperar, afirma nunca se ter sentido verdadeiramente só durante as suas viagens. Pelo contrário, considera que esses momentos são oportunidades de introspeção e crescimento. Em discurso direto, explica que o silêncio o ensina a “desacelerar, observar e respeitar o ritmo natural das coisas”.

Outro aspeto relevante prende-se com a memória. Elzo reconhece que tem dificuldade em reter todos os detalhes das suas experiências, o que o leva a valorizar o registo através de fotografias, vídeos e, idealmente, da escrita. Ainda assim, admite que nem sempre consegue documentar tudo, o que considera um dos seus maiores desafios.

Por fim, no que toca ao propósito, Elzo esclarece que nunca sentiu uma obrigação de partilhar a sua jornada. Contudo, acabou por fazê-lo como forma de inspirar outros a explorar Cabo Verde e a valorizarem a sua identidade. O seu maior desejo é despertar nos cabo-verdianos um sentimento de orgulho e curiosidade pelo próprio país. Assim, pretende deixar como legado não apenas memórias, mas também uma visão: a de um Cabo Verde vivido com intensidade, consciência e autenticidade.

Em suma, Elzo Rodrigues afirma-se como um viajante que vai além do percurso físico, transformando cada passo — agora consolidado pelas dez ilhas — numa narrativa de identidade, resiliência e descoberta.

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