Guiné-Bissau: Campanha eleitoral arranca sob tensão e ausência de propostas políticas

A campanha eleitoral para as eleições gerais de 23 de novembro de 2025 arranca oficialmente a 1 de novembro, num clima de incerteza e forte tensão política. Três fatores contribuem para o ambiente de instabilidade, a decisão do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) de excluir a Coligação PAI–Terra Ranka, liderada pelo PAIGC e por Domingos Simões Pereira; as recentes detenções de militares de várias patentes; e as ameaças da Coligação de não permitir a realização das eleições sem a sua participação.

Num contexto marcado por silêncio programático e ausência de debate, apenas a Plataforma Republicana “Nô Kumpu Guiné”, que apoia o segundo mandato do Presidente Umaro Sissoco Embaló, foi visivelmente ativa em ações de pré-campanha. Os restantes 11 partidos aprovados pelo STJ para as legislativas, oito deles criados após 2020, permanecem praticamente ausentes do terreno político.

Apesar de oficialmente afastada da corrida, a coligação PAI–Terra Ranka tem sido o principal alvo da retórica da Plataforma Republicana, que a acusa de tentar desestabilizar o país. Recentemente, o coordenador da plataforma, Botche Candé, após um périplo político pela zona leste, acusou o líder da coligação de “falta de flexibilidade”, afirmando que “se o PAIGC não participar nas eleições de 23 de novembro, será o fim do partido e a culpa recairá em Domingos Simões Pereira, porque podia chamar Umaro Sissoco Embaló para falarem sobre o país”.

As declarações de Botche Candé espelham o peso político e simbólico que representa a ausência do PAIGC no escrutínio. A possibilidade de o partido participar por via extraordinária é considerada remota, uma vez que o STJ já enviou à Comissão Nacional de Eleições (CNE) a lista definitiva para a impressão dos boletins de voto.

Entretanto, vários candidatos presidenciais independentes ou da oposição deslocaram-se à residência de Domingos Simões Pereira e à sede do PAIGC para expressar solidariedade, após a exclusão da coligação. Alguns observadores interpretaram esses encontros como tentativas de obter apoio político, hipótese rapidamente afastada pelo PAIGC, que reiterou o pedido de boicote ao processo eleitoral.

Atualmente, a atenção recai sobre os candidatos presidenciais admitidos, uma vez que nenhum partido tradicional de peso foi aprovado pelo Supremo. A COLID–GB, de Juliano Fernandes, chegou a ser convidada a corrigir irregularidades, mas acabou excluída da lista final. Assim, todos os indícios apontam para uma vitória expressiva da Plataforma Republicana “Nô Kumpu Guiné”, que concorre em 21 dos 29 círculos eleitorais, o que, à partida, garante-lhe cerca de 70 deputados num parlamento composto por 102 lugares.

No campo presidencial, o cenário mostra-se mais competitivo. Apesar da “quase confirmada ausência de Domingos Simões Pereira”, destacam-se nomes como o antigo presidente José Mário Vaz, o independente Fernando Dias e Siga Batista, todos críticos das políticas de Umaro Sissoco Embaló.

Apoios ou não do PAIGC

Com a impossibilidade de concorrer, o PAIGC debate-se agora com a forma de contestar a legitimidade das eleições. O Bureau Político deliberou por duas vezes que o partido “não deve permitir eleições sem a sua participação”, promessa repetida pelos seus principais dirigentes, que garantem que “sem o PAIGC, não há eleições”.

No entanto, até ao momento não houve ações concretas, nem judiciais nem de rua, contra o processo eleitoral.

A única manifestação prevista é organizada pelo Movimento Pó de Terra, marcada para 1 de novembro, coincidente com o início oficial da campanha. Tudo indica que será a única demonstração pública com ligação à coligação PAI–Terra Ranka. Desde que Domingos Simões Pereira assumiu a liderança do partido, não se registaram manifestações políticas de grande escala. A última tentativa, em novembro de 2024, foi imediatamente dispersada pelas forças de segurança, com 12 dirigentes do PAIGC detidos e agredidos.

Em 28 de outubro, Carlitos Costa, porta-voz histórico do PAIGC, reafirmou que o partido “vai às eleições” e que “Domingos Simões Pereira será Presidente da República”. As declarações foram uma resposta ao líder do PUN, Idriça Djaló, que justificou a exclusão de partidos alegando irregularidades anteriores. Costa acusou Djaló de “falar disparates” e de “proteger os seus próprios interesses”. O porta-voz criticou ainda o ex-primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, atual aliado de Embaló, que declarara que “Quem não quer a democracia que se afaste”.

Carlitos Costa concluiu reafirmando a participação simbólica do PAIGC nas eleições e o compromisso do partido com a luta democrática.

Campanha sem programas nem debate nacional

À margem das controvérsias, a campanha eleitoral, que decorrerá durante 21 dias, inicia sem debates estruturados e sem propostas concretas de governação.

A Plataforma Republicana “Nô Kumpu Guiné”, apontada como vencedora antecipada, não apresentou nenhum programa político detalhado. Toda a sua narrativa assenta na “comunhão de esforços dos guineenses” para garantir a reeleição de Umaro Sissoco Embaló.

Nos últimos cinco anos, o discurso político dominante centrou-se na figura do Presidente e nos “esforços” do seu governo, mais do que em políticas públicas concretas.

No plano presidencial, os candidatos da oposição prometem uma campanha marcada por críticas severas à governação de Embaló, abordando temas como a violação da Constituição, a militarização da política, o abuso de poder, as detenções arbitrárias e a falta de separação entre os poderes.

Desde a sua eleição, Umaro Sissoco Embaló já nomeou três governos de iniciativa presidencial e demitiu um executivo constitucional, eleito após a vitória da PAI–Terra Ranka nas legislativas de 2023, alegando atos de corrupção e uma suposta tentativa de golpe de Estado.

A 24 dias das eleições, a Guiné-Bissau entra numa das campanhas mais tensas e imprevisíveis da sua história recente, sem programas claros, com partidos fragmentados e uma oposição fragilizada pela exclusão e pela censura institucional.

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