Guiné-Bissau: Braima Camará chega a PM em clima de contradições e promessas quebradas

Esta quinta-feira 7 de Agosto, através do Decreto Presidencial n.º 27/2025, Braima Camará foi nomeado Primeiro-ministro (PM) da Guiné-Bissau. É o quarto chefe de Governo escolhido por Umaro Sissoco Embaló em cinco anos de mandato, ainda longe dos sete nomeados por José Mário Vaz em seis anos, mas a decisão causou surpresa, sobretudo devido ao tom agressivo que Camará adoptara durante a crise interna do MADEM-G15. A nomeação representa um selo no processo de reconciliação entre os dois líderes, mas vem carregada de contrariedades e incongruências.

Entre estas, destaca-se a alegada violação da Constituição, a iminência do adiamento das eleições e o recuo face à promessa de só aceitar ser Primeiro-ministro caso o seu partido vencesse as legislativas. Durante a crise no MADEM, Camará chegou a classificar Sissoco Embaló de “ditador” e a recordar que, no tempo de José Mário Vaz como Presidente, recusara quatro convites para chefiar o Governo “porque não venceu as eleições”.

Quando eclodiu a polémica sobre o I Congresso extraordinário do MADEM-G15, Braima Camará afirmou que, para a reconciliação, poderia fazer todas as cedências, excepto abdicar do cargo de coordenador nacional, função que, segundo Braima, conquistou com o voto dos congressistas. Como fundamento, apontou irregularidades no congresso, incluindo a alegada incompetência da comissão organizadora, e lembrou que exercera apenas um ano e meio de um mandato previsto de quatro anos nos estatutos do partido. No entanto, dois acórdãos do Tribunal indeferiram os recursos apresentados, comprometendo essa promessa.

Ao aceitar o cargo de Primeiro-ministro, Camará acabou por quebrar compromissos assumidos publicamente e, segundo críticos, o princípio da legalidade. A luta judicial para recuperar a liderança partidária deixa de ser prioridade, o que alimenta acusações de “traição” por parte de antigos aliados, especialmente aqueles que se mantiveram ao seu lado durante os confrontos com Sissoco Embaló.

A nomeação acontece em plena tensão interna no MADEM, agravada pelo recente indeferimento do recurso de agravo apresentado por Braima Camará, que pedia a suspensão das deliberações do congresso que elegeu Satú Camará como coordenadora nacional.

Braima Camará assume o cargo como simples militante do partido, conforme determinam as decisões judiciais sobre a providência cautelar e o recurso de agravo. Nessa condição, ficará sujeito a pressões e propostas da ala adversária, que poderá usar a estrutura partidária para retaliações, após perder influência na gestão governamental.

A sua nomeação provocou um “silêncio ensurdecedor” na sua própria ala política, que não chegou a reunir qualquer órgão antes de anunciar a aceitação do convite presidencial. Fontes não confirmadas afirmam que Camará exigiu a formalização do convite por escrito a Sissoco Embaló, mas não há confirmação se essa exigência foi cumprida.

Um Governo pesado e composto por múltiplos interesses

Num país marcado por instabilidade crónica, ser Primeiro-ministro implica gerir egos e sensibilidades. Nos Governos de iniciativa presidencial, como este, as polémicas são ainda mais acentuadas, pois as escolhas para a composição do Executivo tendem a seguir critérios arbitrários e extrademocráticos, e os entendimentos firmados raramente são respeitados.

Braima Camará vai liderar um Governo numeroso, com mais de 30 pastas, e politicamente fragmentado. A sua composição inclui o grupo presidencial, mais próximo da ala vitoriosa no MADEM; o grupo de Camará, formado por fiéis que se mantiveram ao seu lado durante a crise interna; duas alas do PRS (a de Félix Nandunguê, próxima do Presidente, e a de Fernando Dias); PTG de Botche Candé; eventuais dissidentes do PAIGC; figuras independentes como Carlos Gomes Jr. e José Mário Vaz, que no passado já receberam quotas ministeriais.

A articulação entre estes grupos e interesses diversos será determinante para a estabilidade e eficácia do Governo, cujas prioridades de governação, a julgar pela experiência recente, poderão ser circunstanciais.

Um Primeiro-ministro sem experiência governativa

O principal trunfo político de Braima Camará é o seu percurso como empresário. Foi um dos maiores exportadores de castanha de caju, liderou a Câmara de Comércio, Indústria, Agricultura e Serviços e, por inerência e rotatividade, presidiu à Confederação Empresarial da CPLP. Contudo, nunca exerceu funções na Administração Pública nem ocupou cargos governativos.

Essa falta de experiência foi alvo de ataques, como o de Botche Candé, que em 2023 afirmou que não debateria “com quem nunca foi director-geral, administrador, secretário de Estado ou ministro”.

Com o PRS, Camará mantém um histórico de fricções: em 2018, a criação do MADEM-G15 frustrou as expectativas do PRS de integrar os dissidentes do PAIGC nas listas de 2019, contribuindo para a perda de deputados, de 41 para 21, enquanto o MADEM conquistou 27.

O maior foco de oposição virá, porém, dos fiéis de Satú Camará, como Sandji Fati, que o qualificou de “perdedor nato”, e José Carlos Macedo, que o acusou de corrupção e de “extorquir dinheiro do Estado”, apontando o caso do terreno de Mbatonha, pelo qual o agora Primeiro-ministro teria recebido 3 mil milhões de francos CFA. “No parlamento fui um dos maiores defensores do pagamento desse dinheiro. Mas é mentira. Não há terreno em Bissau que possa custar aquele montante”, disse Macedo.

Eleições. Prioridade ou pretexto?

Questionado sobre as prioridades do seu Governo, Braima Camará deverá responder com a expressão habitual: “eleições gerais”. Os seus apoiantes garantem que aceitou o cargo não por interesse pessoal, mas por compromisso com a pátria, para unir o país, dinamizar a economia e enfrentar desafios nacionais, reforçando a confiança nas instituições e modernizando o Estado.

As eleições estão previstas para 23 de Novembro, mas, segundo informações internas, há dois meses que cessaram as acções preparatórias, tornando o adiamento quase inevitável. A estrutura governamental recém-formada sugere que várias forças, incluindo as alas de Braima Camará e Fernando Dias, bem como a APU-PDGB de Nuno Nabian, decidiram integrar-se no Executivo para garantir recursos e recuperar lideranças partidárias antes de futuras eleições.

Tudo indica que Camará anunciará as eleições como uma prioridade, mas, num segundo momento, poderá invocar também a “falta de condições”, para justificar um eventual adiamento.

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