Guiné-Bissau: Baciro Djá acusa Braima Camará de “traição” e afasta API do novo Governo

O presidente da Frente Nacional para a Salvação Nacional (FREPASNA), Baciro Djá, afirmou na manhã deste Domingo (10.08), durante a abertura da reunião da Comissão Política do partido, que a coligação pré-eleitoral Aliança Patriótica Inclusiva – API Cabaz Garandi “desconhece em absoluto” as recentes movimentações políticas que culminaram com a nomeação de Braima Camará para o cargo de Primeiro-Ministro.

Falando em nome da API, Djá afastou qualquer envolvimento da coligação na decisão e acusou Braima Camará de “trair um projecto que o amparou em momentos difíceis, sobretudo após perder a liderança do MADEM-G15”.

“A API Cabaz Garandi não se revê neste Governo e nem soube de nada da nomeação de Braima Camará”, vincou Baciro Djá.

Segundo o líder da FREPASNA, nem Braima Camará, nem Fernando Dias “serão capazes de tirar da API 20% das pessoas da sua sensibilidade, quando decidirem sair”. E questionou, “o que é que Braima Camará vai fazer num Governo de três meses? Ou há outra intenção por detrás?”

Visivelmente descontente com o comportamento de Braima Camará, mas também de Fernando Dias e Nuno Nabian, que o acompanham nesta dinâmica, Djá disse não ter sido apanhado de surpresa. Segundo afirmou, “há muito” que o actual Primeiro-Ministro dava sinais de traição, apontando como exemplo a sua ausência no Acordo de Paris e a falta de participação nos trabalhos da API.

Sem entrar em pormenores, revelou ainda ter dado o benefício da dúvida a Braima Camará, ao ponto de o receber na API, “foi um dos erros políticos mais crassos” da sua vida, disse.

“Mas havia motivos para acreditar, porque falo com Braima e com o Sissoco. O que ouvi deles levou-me a acreditar e a afirmar publicamente que jamais se aproximariam. Falhei, e tenho que assumir. Mas vejo aqui, também com este comportamento, uma falta de seriedade e falta do senso do limite entre eles”, afirmou, em alusão ao recuo político de Braima Camará.

O ex-Primeiro-Ministro dirigiu igualmente duras críticas a Umaro Sissoco Embaló, garantindo que nunca poderá juntar-se politicamente ao Chefe de Estado devido a divergências “ao longo dos anos” e, sobretudo, por considerar que este “não tem a mínima preparação para exercer as funções do Estado”.

“Quando me candidatei como independente em 2012, ele pediu-me apoio e recusei. Quando me pediu em 2019, também recusei, porque acho que ele não podia ser Chefe de Estado. Nunca me juntei num projecto político com ele e vou continuar a ficar distante. Sou filho de descolonizador. O meu pai e o meu avô foram combatentes e nunca podia estar na política pelo clientelismo”, disse, acusando o Presidente de recorrer a “manobras políticas para subjugar o político guineense”.

Baciro Djá afirmou não ter dúvidas de que o objectivo de cooptar Braima Camará é “enfraquecer a coligação API” e garantiu que vão manter-se fiéis aos ideais da mesma.

O líder da FREPASNA recordou que, quando Braima Camará e Fernando Dias se juntaram à API, “foram lembrados de que tinham sido eles a instalar Sissoco Embaló no poder” e que, por isso, deviam pedir desculpa.

“Como puderam todos ouvir, pediram. E acreditámos na genuinidade das desculpas. Infelizmente, não foram sérios. Com este comportamento, Braima Camará provou as suas reais intenções”, acusou.

Djá rejeitou igualmente declarações de Braima Camará à imprensa, segundo as quais teria regressado ao país “em nome da API”.

“É falso, porque a API é um projecto de dez anos que tem os seus órgãos. Qualquer contacto tem de ser com base nesses órgãos. A API é um projecto visionário, mas não é ganancioso. Não podemos ter políticos gananciosos. Este povo deve conhecer as pessoas. Existem pessoas que não podem fazer política sem dinheiro. Precisam de dinheiro para alimentar os seus egos, ir aos cofres do Estado, obter dinheiro e corromper o povo. Quem se comporta assim é ganancioso; é traidor”, acusou.

Divergências internas e cenário político

Segundo Baciro Djá, a API continua a defender os princípios que nortearam a sua criação e o Acordo de Paris, “princípios que salvam a democracia”. O político revelou que, através de Nuno Nabian, recebeu um convite de Sissoco Embaló para chefiar o Governo, mas que impôs condições que o Presidente “não estava à altura de cumprir”.

Lembrou também que, em Março, o Supremo Tribunal de Justiça advertiu que, para integrar as listas eleitorais da API, Braima Camará e Fernando Dias teriam de renunciar à militância nos seus partidos.

Para Djá, esta mudança política é um “malabarismo” e questiona a utilidade da nomeação. “Se, como disse Rui de Barros, ex-Primeiro-Ministro, 99% dos preparativos das eleições já estavam concluídos, o que leva Braima Camará a chefiar o Governo durante dois meses? Deve-se ao facto de ser um político incompetente”, tendo frisado que decidiram que vão “boicotar as eleições”.

O dirigente sublinhou que a conferência de imprensa é prova inequívoca das divergências internas na coligação, e acusou Braima Camará de ter “minado” as estratégias da API para se afirmar como terceira via de alternância política na Guiné-Bissau.

Apelo às Forças Armadas

Numa parte da sua declaração, Baciro Djá apelou directamente às Forças Armadas para que “assumam as suas responsabilidades” como garantes do Estado de Direito democrático.

“No dia 4 de Setembro, o mandato de Sissoco acaba. Vamos saber que ninguém é blindado neste país. Se os nossos pais morreram, não temos medo de morrer. Não teremos medo de sermos deitados em João Landim”, disse Baciro Djá, concluindo com críticas à falta de mérito político do actual Presidente. “Uma pessoa que não fez nada na vida não pode fazer de um país de gente pequenina só porque lhe foi dada a Presidência”, vincou.

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