Guiné-Bissau: O silêncio mortal que encobre os sucessivos assassinatos de crianças

O presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos (LGDH), Bubacar Turé, traçou um retrato alarmante da situação das crianças na Guiné-Bissau, classificando o actual momento como um “contexto trágico”, marcado por uma “sucessão de horrores contra os seus filhos mais inocentes”. Em declarações feitas na sua página do Facebook, na sequência de uma visita de dirigentes da Liga às instalações da Polícia Judiciária guineense, Turé lamentou sobretudo a impunidade face aos recentes assassinatos de menores no país.

“A lista é longa. Os corpos, pequenos. E o tempo entre uma tragédia e a seguinte, cada vez mais curto”, escreveu o activista, sublinhando o aumento da frequência destes crimes. Só esta semana, duas crianças foram encontradas mortas, “sem uma explicação pública”, apesar das autoridades assegurarem que decorrem investigações.

Turé recordou ainda o caso ocorrido em Março, na região de Cacheu, em que uma criança foi encontrada esquartejada e sem os órgãos vitais. “O país ficou chocado, indignado – mas a comoção passou”, lamentou, frisando que “até hoje, os autores deste acto macabro continuam impunes”.

O presidente da LGDH alertou para o agravamento da situação: “A confirmar-se a morte por asfixia destas duas crianças, este será o terceiro – ou talvez o quarto – caso do género registado nos últimos anos, sem que haja qualquer responsabilização”. Turé foi mais longe, denunciando que “as investigações destes casos não têm produzido qualquer resultado satisfatório”, e apontou fragilidades à Polícia Judiciária, que, segundo ele, “carece de tudo”.

Entre outros episódios críticos, Turé destacou o caso das ossadas de uma criança desaparecida há quase sete meses, encontradas numa savana no sul do país, e o de uma criança de apenas um ano e meio, encontrada morta em Bissorã, no norte. “Tal como nos casos anteriores, este destino mergulhou no mesmo mar de silêncio e impunidade”, sublinhou.

O activista também chamou a atenção para o papel dos pais e encarregados de educação, questionando: “Algumas destas mortes levantam também questões sérias sobre a responsabilidade dos pais e encarregados de educação. Lamentavelmente, este país protege muito pouco os seus filhos mais pequenos. Só na Guiné-Bissau é que se vê uma criança a acompanhar outras duas para irem à escola”.

Para Bubacar Turé, o que se verifica é uma “desprotecção sistemática” das crianças, que considera ser “um reflexo do abandono social em que a infância guineense vive”.

A sucessão de tragédias e a ausência de respostas eficazes por parte das autoridades acentuam o clima de insegurança e vulnerabilidade em que vivem as crianças guineenses.

Mamandin Indjai

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