Perante a mudança nos hábitos de consumo, a Comissão Europeia apresentou recentemente um conjunto de medidas para reforçar a competitividade e a resiliência do setor vitivinícola.
Entre as propostas, destaca-se a promoção do vinho sem álcool como forma de responder à quebra no consumo e de explorar novos nichos de mercado.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o consumo de álcool per capita na Europa caiu 20% entre 2000 e 2019, impulsionado por preocupações de saúde pública, alterações geracionais e maior fiscalização da condução sob efeito de álcool.
Em resposta, produtores como a Associated Beverage Solutions, sediada na Bélgica, têm apostado na desalcoolização do vinho.
A empresa recorre à destilação a vácuo, uma técnica que preserva melhor os aromas e sabores, permitindo aquecer o vinho a apenas 35°C, temperatura suficiente para remover o álcool sem comprometer a essência da bebida. Em 2024, a produção da empresa atingiu os 5,3 milhões de litros, contra 1,2 milhões em 2019.
Benoît Poisson, diretor de produção da empresa, refere que a qualidade do vinho sem álcool está a evoluir, destacando a crescente colaboração com fornecedores de aromas e produtos enológicos adaptados a este novo mercado. Admite, no entanto, que a produção de vinho tinto sem álcool continua a ser tecnicamente mais desafiante do que a de brancos ou espumantes.
Grande parte da produção é exportada para os países escandinavos, os Países Baixos, o Reino Unido e a Bélgica, mercados tradicionalmente mais recetivos à inovação no setor.
Os vinhos desalcoolizados resultam de uvas provenientes sobretudo de França, Espanha e Itália.
Para apoiar o crescimento deste segmento, Bruxelas propôs clarificar e harmonizar as designações utilizadas nos rótulos.
A Comissão sugere que “sem álcool” se aplique a vinhos com teor alcoólico até 0,5%, enquanto “0,0%” se reserve a produtos com menos de 0,05%.
A menção “baixo teor alcoólico” destinar-se-ia a vinhos com teor superior a 0,5%, mas pelo menos 30% inferior ao valor típico da categoria.
A Comissão pretende ainda reforçar a transparência junto dos consumidores, exigindo que os rótulos informem sobre os métodos de desalcoolização e os ingredientes utilizados.
Francis Aguilar, diretor-geral da Associated Beverage Solutions, acredita que o vinho sem álcool traz valor ao setor tradicional. “O vinho com álcool tem de ser produzido primeiro. A desalcoolização é apenas mais um passo na cadeia”, afirma, sublinhando que o produto é hoje mais bem aceite, mesmo por viticultores tradicionalmente céticos.
Além da aposta nos vinhos sem álcool, o pacote de medidas prevê também maior flexibilidade nas autorizações de replantação, o arranque de vinhas excedentárias e a colheita precoce para evitar excedentes.
Entretanto, o setor europeu enfrenta ainda incertezas no plano internacional.
O presidente norte-americano Donald Trump ameaçou impor uma tarifa de 200% sobre o vinho europeu, caso a União Europeia avance com taxas sobre o bourbon norte-americano.
A pressão diplomática, sobretudo de França e Itália, poderá levar Bruxelas a recuar.