Cessar-fogo entre Israel e Líbano poderá estar iminente

Benjamin Netanyahu confirmou interesse do seu executivo em aceitar a proposta de um cessar-fogo de 60 dias com o Líbano, cuja decisão final será anunciada após a reunião entre o gabinete de segurança Israelita esta terça-feira à noite, em Tel Aviv. Contudo, Netanyahu deixou a ressalva de que mesmo que um cessar-fogo seja acordado, a guerra contra o Hezbollah continuará.

Esta decisão vem na sequência da última tentativa de negociações entre Beirute e Tel Aviv mediadas pelo emissário Norte-americano Amos Hoschtein, após Donald Trump ter exigido que um acordo fosse feito o mais rapidamente possível. Hoschtein seguiu as ordens de Trump (que só tomará posse do seu cargo como Presidente dos EUA a partir de 20 de Janeiro de 2025) e após intensas negociações com oficiais Libaneses e Israelitas terá conseguido chegar mais perto de um acordo definitivo.

A aparente receptividade do executivo de Netanyahu para aceitar um cessar-fogo poderá ter sido influenciada por dois desenvolvimentos na frente de batalha: por um lado, a incapacidade das tropas Israelitas conquistarem qualquer aldeia libanesa, após mais de um mês de incursões terrestres no sul do Líbano; por outro, a intensificação dos ataques do Hezbollah, que no domingo passado lançou mais de 340 mísseis contra Israel num total de 51 operações militares, chegando a atingir Tel Aviv e forçando cerca de 4 milhões de cidadãos Israelitas a procurar refúgio temporário dentro de bunkers. Esta escalada por parte do Hezbollah durante o fim de semana foi uma resposta ao massacre feito por bombardeamentos Israelitas numa área residencial no centro de Beirute no sábado onde foram mortos pelo menos 30 civis.

Apesar das agressões mútuas entre Israel e o Hezbollah continuarem (ainda na noite de segunda-feira, a cidade nortenha de Nahariyya foi atacada com mísseis do grupo xiita e a zona sul de Beirute foi novamente fustigada por bombardeamentos Israelitas), um cessar-fogo parece ser uma possibilidade cada vez mais real, especialmente após a pressão de Trump em acelerar o processo de paz na região antes de tomar posse em Janeiro do próximo ano.

Um cessar-fogo beneficiará em primeiro lugar o povo Libanês, que conta com mais de 3 mil mortos e mais de 1.5 milhões de pessoas internamente deslocadas e a viver em condições cada vez mais precárias e sem garantias que terá o seu país reconstruído num futuro próximo. O Líbano, que está sem Presidente da República há mais de 2 anos e que continua a passar pela mais devastadora crise socioeconómica da sua história, terá pela frente desafios internos colossais, incluindo a confiança do seu povo numa classe política que o abandonou durante mais de um ano de guerra com Israel. O Hezbollah terá também batalhas internas a travar: o grupo xiita tentará justificar aos seus apoiantes o envolvimento voluntário num conflito contra Israel por solidariedade com Gaza sem no entanto ter garantido qualquer segurança ao povo Libanês e tê-lo exposto a dimensões destrutivas amplamente superiores às da guerra de 2006 (que, de resto, só tinha durado 34 dias); um cessar-fogo com Israel não é necessariamente um sinal de vitória (mesmo que o Hezbollah tenha impedido a conquista de território Libanês por parte das forças Israelitas) até porque Gaza continua sob bombardeamentos diários e as hostilidades naquela frente não parecem ter fim à vista.

O Hezbollah terá também de se preparar para os crescentes ataques dos seus opositores políticos (nomeadamente o Kataeb e as Forças Libanesas) que vão aproveitar o estado caótico do país para justificar a remoção do grupo xiita do Líbano e respectiva influência Iraniana.

Por seu lado, Israel sai como o grande perdedor desta guerra: Mais de 40 mil negócios faliram, um dos seus mais importantes portos comerciais (o porto de Eilat) abriu bancarrota, há cada vez mais desinvestimentos estrangeiros, o turismo é praticamente inexistente (devido a falta de segurança) e nenhum objectivo bélico foi conquistado (à parte da eliminação de altos oficiais do Hamas e do Hezbollah). Netanyahu foi incapaz de recuperar os reféns Israelitas retidos em Gaza e de garantir o retorno seguro dos seus cidadãos à região no norte, junto da fronteira com o Líbano, apesar do Primeiro-ministro ter afirmado que as forças militares do Hezbollah no sul Libanês tinham sido neutralizadas. Israel atravessa ainda um período de fatiga extrema entre os seus soldados e milhares de cidadãos têm recusado combater em Gaza, contribuindo assim para uma crise militar onde não há soldados suficientes para servir o Exército.

A liderança de Netanyahu tem também sido internamente criticada por políticos como Yoav Gallant e Ben Gvir, e esperam-se mais manifestações públicas contra o seu executivo, especialmente após os resultados das últimas sondagens que apontam para 88% do eleitorado Israelita ser contra um cessar-fogo com o Hezbollah.

Netanyahu tem ainda um problema acrescido: o veredicto do Tribunal Penal Internacional (TPI) emitido na semana passada, em que foram dadas ordens de detenção ao Primeiro-Ministro Israelita e o seu ex-Ministro da Defesa por crimes de guerra, irá limitar o raio de acção de Netanyahu para viajar e participar em eventos e cimeiras. O TPI é constituído por 124 estados membros, entre os quais diversos países (inclusive Portugal) já confirmaram que irão deter Netanyahu se este se deslocar até aos respectivos territórios.

Contudo, mesmo enfraquecido, Netanyahu tentará manter-se no poder e esta decisão de aceitar um possível cessar-fogo poderá indicar uma tentativa de agradar a Trump para poder garantir continuidade à frente do governo Israelita para lá de Janeiro de 2025.

Os próximos dias poderão, assim, ser decisivos para o fim das hostilidades entre Israel e o Hezbollah e a implementação de medidas de segurança temporárias, como a retirada das tropas Israelitas do Sul do Líbano e reforçar o envolvimento da ONU nas zonas fronteiriças para mediar tensões militares entre os dois lados.

João Sousa, e-Global

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