Israel e Líbano preparam-se para uma possível guerra total

Quando Israel atacou uma área residencial no sul de Beirute na passada terça-feira, matando 7 pessoas, três mulheres, duas crianças, e um alto comandante do Hezbollah, Fuad Shukr, o governo de Benjamin Netanyahu anunciou que a vingança pelas mortes das 12 crianças em Majdal Shams no sábado passado, causadas pela queda de um míssil dentro de um campo de futebol, estava consumada e que este capítulo estaria concluído.

A causa desta tragédia ocorrida há uma semana, em Majdal Shams, cidade maioritariamente habitada por Druzos Sírios, e ilegalmente ocupada pelo Estado Israelita, foi atribuída ao Hezbollah por Israel. E apesar dos locais terem indicado que o míssil teria sido um projéctil interceptor proveniente da Cúpula de Ferro Israelita, Israel usou este pretexto para lançar uma retaliação contra o Hezbollah em Beirute.

Horas depois do ataque de drone na capital Libanesa, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, foi declarado morto na sua residência em Teerão, numa operação orquestrada pela Mossad através da detonação de uma bomba, com conhecimento e aval dos EUA. 

Estes dois eventos despoletaram fortes reacções por parte do Hezbollah, do Hamas e também do próprio governo Iraniano, no sentido de organizar uma ofensiva de retaliação contra o Estado de Israel, que, segundo o Pentágono, estará estimada para os próximos dias.

Estes objectivos foram realçados e confirmados durante o discurso do Secretário-Geral do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, que precedeu o funeral do alto comandante do Hezbollah assassinado na terça-feira. Nasrallah declarou que Netanyahu não tem noção das consequências das suas ofensivas recentes no Líbano e no Iémen e que o conflito deixou de ser simplesmente uma frente militar de apoio a Gaza e à causa palestiniana e tornou-se agora numa batalha aberta que deixará Israel à mercê dos seus inimigos.

Teerão também respondeu aos assassínios de alto perfil, nomeadamente à morte de Haniyeh, garantindo que está a preparar uma retaliação de grande escala contra Israel, cujas dimensões e potenciais danos poderão ser vastamente superiores à ofensiva aérea em meados de Abril. Esta operação de retaliação poderá incluir ataques coordenados com o Hezbollah, a partir do Líbano, e com os Houthis no Iémen, ambos os grupos associados e financiados pelo Irão. Outros protagonistas poderão fazer parte desta ofensiva, como as Forças de Mobilização Popular no Iraque, e facções baseadas na Síria.

Embora os líderes iranianos prometam uma operação de grande impacto, mas contida para evitar uma guerra total na região, há receios que as consequências e respectiva resposta Israelita sejam catastróficas. Também o Egipto e a Jordânia condenaram o assassínio de Haniyeh e consideram agora Israel como um estado perigoso para a estabilidade diplomática no Médio Oriente.

Desde o início da guerra, que dura já há mais de 300 dias, Netanyahu tem sistematicamente e progressivamente escalado e expandindo a intensidade do conflito e também rejeitado qualquer proposta de cessar-fogo com o Hamas e proporcionar uma troca de reféns, 115 civis Israelitas encontram-se ainda retidos em Gaza, simultaneamente revelando-se incapaz de derrotar o Hamas.

Apesar de Netanyahu continuar a receber apoio dos EUA, que esta semana enviou mais de uma dezena de navios de guerra rumo ao Mar Mediterrâneo, centenas de milhares de cidadãos Israelitas, entre os quais, familiares dos reféns em Gaza, têm organizado protestos em Tel Aviv exigindo a demissão do Primeiro-Ministro.

Esta instabilidade interna tem sido também causada pela deterioração económica do país, com danos financeiros consideráveis criados pelos encerramentos de diversas companhias, cancelamentos de voos, turismo em queda livre, redução de investimentos estrangeiros e perturbação no mercado de trabalho, cujos custos colectivos estão estimados em perdas na ordem dos 400 mil milhões de dólares nos próximos anos. Para além do impacto económico, o executivo de Netanyahu tem tido dificuldades em encontrar soluções para possibilitar o retorno de mais de 100 mil cidadãos israelitas às suas residências e respectivos locais de trabalho no norte, junto da fronteira com o Líbano.

Netanyahu, que tentou usar estes dois ataques recentes em Beirute e Teerão para galvanizar a sua popularidade, pretendeu também demonstrar aos seus adversários que Israel tem o poder de assassinar qualquer membro do Eixo da Resistência sempre e onde quiser.

O Líbano encontra-se também em condições precárias. Desde 2019, a população libanesa tem atravessado a sua pior crise sócio-económica de sempre, acentuada pela falta de investimentos estrangeiros por parte do Golfo, um país que continua sem um Presidente desde há quase 2 anos. As divisões políticas e ideológicas internas têm também contribuído para esta instabilidade generalizada: grande parte do povo libanês está contra a presença do Hezbollah no seu território, e apesar do grupo xiita ter ganho considerável popularidade desde o início da guerra, por ser visto como a única forma de defesa efectiva contra Israel, uma invasão israelita poderá danificar a sustentabilidade política e militar do Hezbollah no Líbano de forma irreversível.

A semana passada foi marcada por avisos de diversas embaixadas aos seus cidadãos a deixar o Líbano e os cancelamentos de voos por várias companhias aéreas, sugerem que a retaliação do Irão contra Israel poderá despoletar uma resposta com efeitos colaterais devastadores. Os hospitais libaneses têm estado a preparar-se logisticamente para o impacto de uma possível escalada militar e respectivas vítimas civis, e embora as autoridades médicas tenham indicado que as infraestruturas hospitalares estejam suficientemente operacionais, há uma declarada falta de especialistas na área da medicina militar. Para além disso, uma guerra de média duração poderá causar complicações na importação de medicamentos. Desde terça-feira, centenas de libaneses decidiram fugir do país e algumas famílias voltaram ao sul em vez de permanecer na capital por temerem que as pessoas investidas militares israelitas fiquem centrada nas áreas residenciais densamente populadas no distrito sul de Beirute.

Independentemente da evolução dos acontecimentos, cujos desenvolvimentos ficarão mais claros após a aguardada ofensiva Iraniana, vários pontos podem ser salientados:

– Apesar dos diversos assassínios de alto perfil por parte de Israel, o Eixo da Resistência, liderado pelo Irão, continuará as suas operações contra o Estado Israelita e a colocar pressão sobre a influência go-estratégica dos EUA no Médio Oriente.

– O Hamas continua a impor-se como uma entidade legítima para representar a resistência e auto-determinação dos Palestinianos em Gaza, nomeadamente após os sucessivos fracassos da Autoridade Palestiniana ao longo dos anos.

– Israel tem cada vez menos aliados.

– As operações militares devastadoras em Gaza por parte de Israel e as atrocidades cometidas, resultando em dezenas de milhares de civis inocentes mortos, alterou a percepção do público geral da legitimidade das acções de Israel, e o processo em curso por parte do Tribunal Penal Internacional contra Netanyahu coloca-o num estatuto de criminoso de guerra que poderá abrir precedentes legais contra outros políticos israelitas.

– Há cada vez mais Judeus espalhados pelo mundo a criticar abertamente Israel e a ideologia sionista.

– Internamente, Israel arrisca-se a assistir a uma guerra civil, especialmente se o resgate de reféns em Gaza não for bem sucedido e houver uma escalada no conflito directo com o Irão.

– As sanções impostas contra o Estado de Israel pela ONU e as pressões crescentes pela Comunidade Internacional para limitar o raio de acção em zonas ilegalmente ocupadas, como a Cisjordânia e Jerusalém Leste poderão redundar em perdas consideráveis de território, culminando ainda na imposição de uma solução de dois estados, opção rejeitada pelo executivo de Netanyahu.

João Sousa, e-Global

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