A relação entre Brasil e Estados Unidos escalou ao nível de crise política nos últimos meses, com medidas que combinam sanções, tarifas punitivas e confrontos institucionais. O presidente norte-americano Donald Trump assinou uma ordem executiva impondo uma sobretaxa de 50% sobre as importações brasileiras, com efeito previsto para 6 de agosto de 2025. A decisão foi apresentada como resposta ao processo judicial contra o ex‑presidente Jair Bolsonaro, qualificado pelo governo Trump como “perseguição política”. Uma lista de quase 700 itens ficou isenta dessa tarifa, representando cerca de 42% das exportações brasileiras para os EUA em 2024.
Na sequência, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou sanções económicas contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, com base na “Global Magnitsky Act”. A ação congela bens de Moraes nos EUA e proíbe transações com cidadãos ou entidades americanas, além de proibir a sua entrada no país. Essas sanções seguem a revogação do seu visto e o de familiares em 18 de julho de 2025. O Tesouro americano acusa Moraes de autorizar detenções arbitrárias, censura e perseguição política, especialmente no julgamento do caso Bolsonaro.
A estratégia política por trás dessas medidas incluiu pressão do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex‑presidente, que vive nos EUA desde março, onde busca apoio contra o processo judicial em relação ao seu pai. Eduardo defende sanções contra Moraes e membros do Supremo sob a mesma lei Magnitsky e chegou a afirmar que as decisões contra Bolsonaro e aliados seriam “criminosa e arbitrárias”. O Supremo Tribunal do Brasil, por sua vez, ordenou o uso de tornozeleira eletrónica para Jair Bolsonaro, restringiu o seu contato com autoridades estrangeiras e proibiu o uso de redes sociais, sob suspeita de envolvimento em plano golpista e conluio com Trump.
Também fruto do movimento do STF brasileiro, e a emergir no cenário internacional, a deputada federal Carla Zambelli, com dupla cidadania ítalo-brasileira e condenada a 10 anos por crimes que incluem invasão de sistemas judiciais e porte ilegal de armas, foi detida em Roma em 29 de julho após fugir do Brasil em maio. Zambelli usava a sua cidadania italiana como alegação de impunidade, mas acabou incluída na lista vermelha da Interpol e poderá ser extraditada.
A situação expõe um Brasil dividido entre a defesa da independência judicial e críticas severas dos EUA sobre direitos humanos e liberdade de expressão. Enquanto o governo Lula rejeita qualquer “chantagem” externa e defende instituições nacionais, os EUA argumentam que apoiam um aliado político em crise judicial. A tensão comercial já se reflete no câmbio e nas taxas de juros brasileiras, com a desconfiança de investidores sobre possíveis represálias adicionais.
Ígor Lopes