Quatro tentativas de acções de rua da oposição falharam. A oposição a Umaro Sissoco Embaló está com dificuldades a pôr o povo na rua, em parte devido aos elevados riscos do uso de força que a Presidência aplicou nas pretéritas pequenas tentativas de mobilização.
A 24 de Novembro os militantes e simpatizantes dos grupos da oposição estavam que iriam sair às ruas, mas fundamentos “inconvincentes” foram evocados pela Coligação PAI Terra Ranka que desconvocou a manifestação, já baptizada de “Povo lanta”.
Uma marcha organizada por uma Comissão Técnica da aliança PAI Terra Ranka e API Cabaz Garandi, mas que no momento decisivo, ninguém conseguiu apresentar motivos convincentes para o seu adiamento. A e-Global soube que na origem do adiamento da marcha pesou a desconfiança recíproca entre os políticos que integram PAI Terra Ranka e da API Cabaz Garandi, que continuam a ter uma forte ligação ao Presidente Sissoco Embaló.
Com base nesta desconfiança, a Coligação PAI Terra Ranka destacou os acontecimentos de 21 de Novembro e a “agressão aos seus dirigentes durante a passeata” que serviu de argumento para sustentar a decisão de adiar a marcha e a reprogramar para um período mais sereno, mas indefinido.
Domingos Simões Pereira, coordenador da Coligação PAI Terra Ranka, denunciou o que qualificou de intriga cimentada pelo actual poder político, entre as forças de defesa e segurança com a classe política que não apoia o regime. É assim notório o medo da oposição para enfrentar o que designa de “ditadura de Umaro Sissoco Embaló” e que actualmente conta com um apoio aparente dos militares e forças da polícia.
Na véspera da projectada marcha, a Coordenação da Coligação PAI Terra Ranka convocou uma conferência de imprensa, sem a presença de representantes API Cabaz Garandi, para anunciar a desconvocação da marcha.
À imprensa, Domingos Simões Pereira disse que os dirigentes dos partidos membros da Coligação reuniram mais de duas horas e analisaram as diferentes vertentes desta acção e decidiram a anular, não desistindo todavia da “luta”.
“Continuamos a assumir a nossa responsabilidade nessa luta. Contudo, não achamos que, em defesa dos direitos democráticos, temos que levar as pessoas à morte, com um regime que não tem mãos a medir com a violência. Mas, a luta não vai parar. Desconvocamos a marcha de amanhã; vamos aceitar as vossas críticas, mas num período não muito longe iremos convocar nova manifestação”, garantiu Domingos Simões Pereira.
Nos corredores sussurram que a marcha foi desconvocada porque os dirigentes da Coligação PAI Terra Ranka sentiram falta de envolvimento da API Cabaz Garandi. Conforme revelaram algumas fontes da Coligação, no dia em que deveriam concertar para a marcha, dos quatro líderes da API, apenas um estava disponível.
Divisões made in Sissoco
As estratégias de pressão da oposição têm falhado face às acções de alimentar divisões que o Presidente da República Umaro Sissoco Embaló continua a cultivar no seio da classe política guineense. Não conseguindo dividir de facto o PAIGC, devido a uma coesão demonstrada por esta formação política, Sissoco Embaló orientou-se para a divisão e crispação entre os aliados circunstanciais do PAIGC, instalando um clima de desconfianças. Uma táctica evidenciada no dia em que foi assinada a aliança entre PAI Terra Ranka e API Cabaz Garandi, em que o Presidente minimizou o acto e vincou que todos os elementos da API estão do seu campo.
No dia seguinte o chefe de Estado reuniu com Baciro Djá que à saída do encontro disse que tivera uma conversa cordial. Após a reunião do Conselho de Ministros de 22 de Novembro, Sissoco Embaló reafirmou também que, no dia que quiser, Braima Camará juntar-se-á ao seu campo. Por fim, tacticamente esteve presente nas cerimónias fúnebres da mãe de Nuno Gomes Nabian, tendo na ocasião sacrificado dois touros e dançou cumprindo a tradição ritual balanta. Dias antes, Sissoco Embaló foi visto em outra cerimónia fúnebre balanta (toca choro de Domingos Quadé, dirigente do PRS) ao lado de Fernando Dias, presidente de uma ala do PRS.
Estes episódios evidenciam as boas relações entre o Presidente da República e os dirigentes da API. Episódios que aconteceram na semana da passeata, que juntara as duas coligações, mas que os detidos pela polícia apenas foram apenas dirigentes da PAI Terra Ranka, e sobretudo dirigentes do PAIGC, nomeadamente a terceira vice-presidente do partido, segunda secretária da ANP, Dan ialá, o Secretário Nacional do PAIGC, António patrocínio, o porta-voz Muniro Conté e o ex-líder de bancada, Wasna Papai Danfá. Apesar de detenções e torturas terem acontecido no âmbito da passeata, a dúbia reacção dos aliados políticos do PAI Terra Ranka destacaram-se pelo seu silêncio.
Ainda mobilizados
Apesar da incapacidade de actuar neste momento, a oposição ao actual regime não está desmobilizada. A possibilidade da Coligação PAI Terra Ranka avançar sozinha para uma manifestação de rua é cada vez mais provável.
Porém, esse cenário torna os apoiantes da PAI Terra Ranka mais vulneráveis aos ataques das forças de ordem.
Ainda não foi avançada uma data para nova marcha, mas é já comentado que esta poderá acontecer antes do final do ano, que seria um teste decisivo para as contestações a partir de 27 de Fevereiro de 2025, quando o mandato do Umaro Sissoco termina.