O Governo de Transição da Guiné-Bissau manifestou “profunda indignação” e “veemente repúdio” face às declarações do primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, que classificou o país como um “Estado falhado”, na sequência do golpe de Estado de novembro.
Em comunicado divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, Cooperação Internacional e das Comunidades, o executivo guineense avisa que não aceitará “qualquer tentativa de humilhação pública, estigmatização política ou desqualificação institucional”, sobretudo quando proveniente de um Estado-membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
No documento, datado de 12 de fevereiro de 2026, o Governo sustenta que as declarações do líder timorense revelam “falta de dignidade, postura política e moral” para avaliar a realidade institucional da Guiné-Bissau. O comunicado vai mais longe, ao referir que tanto Xanana Gusmão como o Presidente timorense, José Ramos-Horta, possuem um histórico de controvérsias públicas que, no entender das autoridades guineenses, fragiliza a autoridade com que se pronunciam sobre a governação de outros Estados.
A reação surge após declarações feitas por Xanana Gusmão aos jornalistas, em Díli, no final de um encontro com José Ramos-Horta. O chefe do Governo timorense afirmou que o golpe de novembro demonstra que a Guiné-Bissau “já não é um Estado frágil, mas um Estado falhado”, defendendo a necessidade de reforçar o apoio internacional ao desenvolvimento da democracia e dos direitos humanos no país.
“Fomos ajudar a montar todo o sistema, nomeadamente a CNE, para realizarem as primeiras eleições democráticas na Guiné-Bissau. Mas depois disto, voltar agora com um golpe militar ou golpe de Estado, já não falamos de Estado frágil, falamos de Estado falhado”, declarou.
Timor-Leste recorda que, na sequência do golpe de 2012, prestou apoio técnico e político à organização eleitoral guineense durante vários anos. O primeiro-ministro sublinhou ainda o papel do país no g7+, grupo de Estados considerados frágeis, do qual Timor-Leste é cofundador e a Guiné-Bissau membro.
“Somos cofundadores do g7+, que olha para Estados frágeis. Agora a Guiné-Bissau tornou-se um Estado falhado”, afirmou, acrescentando que é dever da comunidade internacional apoiar o país africano no caminho da democracia.
A crise diplomática ocorre num contexto particularmente sensível. Timor-Leste assumiu recentemente a presidência rotativa da CPLP para o biénio 2026-2027, após a organização ter suspendido a Guiné-Bissau das suas atividades, na sequência do golpe que interrompeu o processo eleitoral e impediu a divulgação dos resultados das eleições gerais.
Na reunião do Conselho de Ministros em Díli, o Governo timorense aprovou como tema da presidência “Consolidação do Estado de Direito Democrático e os Desafios da CPLP”. Segundo Xanana Gusmão, o tema é “extremamente relevante”, não apenas para a situação na Guiné-Bissau, mas também face aos desafios políticos em outros países lusófonos.
No comunicado agora divulgado, o Governo de Transição de Bissau reafirma o compromisso com os princípios democráticos e rejeita categoricamente a classificação de “Estado falhado”, insistindo que não aceitará ingerências que considere atentatórias à sua soberania e dignidade institucional.