Entrevista

Arménia-Portugal, uma simbiose perfeita

Lia

Em tempos de pandemia, as viagens foram severamente afetadas, mas num passado muito recente, a descoberta de novos destinos possibilitou a mudança de vida a várias pessoas que chegaram a Portugal para estudar, trabalhar ou até por engano, como foi o caso de Lia Khachikyan, a jovem arquitecta natural da Arménia que chegou a Lisboa no âmbito do programa Erasmus, apesar da sua preferência por Milão.

Depressa se apaixonou pela língua de Camões e, com o apoio da Associação de Amizade Portugal- Arménia- AAPA, ajudou a fundar o primeiro curso de Língua Arménia na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Um passo de gigante foi dado no ano lectivo de 2018/19 no sentido de estreitar relações entre os dois países e as suas culturas, mas Lia não se fica por aqui e o próximo passo será levar a Língua e Cultura Portuguesa à Arménia.

Por Ana Gonçalves 

“É muito importante que a língua portuguesa, que é muito rica, esteja também representada na Arménia e acessível às pessoas que querem conhecer outras realidades”

 

Lia, quando é que começou esta aventura por terras lusas?

Já estou em Portugal há 6 anos, vim inicialmente como estudante de Erasmus numa outra área que não tinha nada a ver com Letras ou Literaturas e comecei a fazer os meus estudos normais. Mas uma das maiores dificuldades com que me confrontei foi a falta de conhecimento da língua, porque no meio académico uma das ferramentas mais importantes passa pelo domínio da língua e o meu inglês não era assim tão perfeito, que me permitisse acompanhar tudo e passado quase um ano de muitos altos e baixos, tomei uma decisão – vou aprender português. Sempre gostei de aprender várias línguas e comecei a aprender português e, desde logo, apaixonei-me pelo mundo tão rico que esta língua nos traz. Decidi mudar de área, fazer doutoramento de português como língua estrangeira até porque, a pouco e pouco, o meu percurso de aquisição da língua ia progredindo e, ao mesmo tempo, ao falar com outros arménios que cá estavam notei que não havia nenhum ensino da língua arménia formal ou informal

 

Há um nome que toda a gente parece conhecer quando falamos da Arménia em Portugal, que é Calouste Gulbenkian, mas mesmo assim os laços de aproximação aos dois países não se fazem sentir tanto…

É muito curioso aquilo que acabou de dizer, Gulbenkian esteve cá desde a década de 50 do século passado, teve muito impacto na cultura do país através de uma fundação muito notável quer no dia a dia, quer no meio académico português. No entanto, mesmo assim não existiam cursos de língua arménia. Nessa altura, comecei a pensar, “bem, eu domino bastante bem a língua arménia, consigo explicar aos outros, também já sei bastante bem português o que me pode facilitar neste processo, então vou criar cursos de língua arménia.”  Nessa altura, há cerca de três anos, falei com o presidente da recém criada Associação da Amizade, acerca dos cursos e ele também achou boa ideia, ele próprio já havia pensado nisso, mas nunca tinha encontrado ninguém que o fizesse. Decidimos unir esforços, apresentámos o projeto às comunidades arménias da Fundação Calouste Gulbenkian, obtivemos financiamento e avançámos com este projeto do ensino da Língua e Cultura arménia, que é o primeiro, tanto quanto sei, na Península Ibérica.

 

E abriu em 2018/1019 a primeira cadeira de Língua e Cultura arménia na faculdade de Letras de Lisboa. Como é que foi esse arranque? Houve muitos alunos interessados?

Para grande surpresa nossa, logo de início tivemos 15 alunos inscritos. Obviamente é uma língua um bocado difícil também, há muitos alunos que, por exemplo, não sabem que têm de aprender um novo alfabeto, um novo sistema de escrita, portanto, este é o grande desafio nos primeiros tempos e alguns acabam mesmo por desistir pelas dificuldades inerentes.  Chegam ao curso, sobretudo, pessoas que têm algum conhecimento, embora pouco, da cultura ou da língua, Portanto não posso dizer que as pessoas que vêm não sabem mesmo nada, já são pessoas interessadas. Agora, têm motivações diferentes, alguns gostam da história e cultura arménias e vêm aprofundar os seus conhecimentos, outros têm laços familiares com arménios e já sabem alguma coisa… No geral, diria que a maior parte dos alunos não tem um grande conhecimento da língua, pois é muito diferente, embora faça parte da família das línguas indo-europeias, é um subgrupo completamente diferente, é um ramo independente.

 

Aprende-se  na sala de aula o arménio padrão, por assim dizer? Qual é a grande diferença entre, por exemplo, o arménio ocidental e arménio oriental?

Nós estamos a ensinar o arménio oriental, a língua arménia passou por várias fases ao longo da história. Existe o arménio pré-escrito antes da criação do alfabeto, que vai do III milénio a.C. até ao séc. V d.C. No ano 405, 406, não está muito claro, foi criado o alfabeto arménio e aí entrámos numa fase do arménio pós-escrito, que se divide em três grandes etapas de desenvolvimento. Um fator muito importante é que o arménio devido a acontecimentos históricos bifurca-se, cria-se o arménio ocidental e o arménio oriental. Quando nos referimos ao arménio ocidental, referimo-nos ao arménio falado na diáspora, pelas pessoas espalhadas pelo mundo e o arménio oriental é a língua oficial da Arménia. Ao nível da gramática e fonética apresentam diferenças assinaláveis, apesar dos falantes se entenderem mutuamente e usarem o mesmo alfabeto.

 

Como é que se encontra organizado o curso?

Neste momento, temos 4 níveis como unidades curriculares. O nível I, II, III e IV e mais dois níveis como cursos livres. A nossa intenção será ter seis unidades curriculares ou seja seis níveis já a partir do ano que vem. Todos os cursos dão semestrais, no primeiro semestre baseamo-nos sobretudo no conhecimento do alfabeto, porque são 39 letras, a forma de escrita é completamente diferente do latim e é preciso algum tempo até as pessoas se familiarizarem com a forma de escrita e algumas frases básicas para se cumprimentarem, para se despedirem, para responderem a uma informação básica sobre si mesmos e pouco a pouco vai-se evoluindo… a componente mais forte do curso é a língua, obviamente, mas tenta-se incluir o máximo possível as questões culturais, pois percebemos que as pessoas que frequentam o curso têm interesse nessa componente, além de que a cultura e a língua estão interligadas, se conhecermos, se adquirirmos melhor a cultura conhecemos melhor a língua e vice versa.

 

Tem ideia de quantos arménios vivem em Portugal, actualmente?

É uma comunidade bastante pequena, se não estou em erro, consoante os dados do SEF de 2019, vivem e trabalham em Portugal cerca de 88 cidadãos arménios. Mas, esse número, na minha opinião, não é representativo, porque não faz referência aos arménios que já obtiveram cidadania portuguesa e logo já contam como portugueses. O número tem vindo a crescer, muito graças a programas de Eramus e a outros programas internacionais.

 

E nestes dois anos tem-se notado já um intercâmbio maior entre cá e lá, entre Portugal e Aménia em consequência do curso?

Isso é muito importante, é uma das nossas maiores preocupações também, sobretudo quando falamos do ensino de línguas. Já em Janeiro de 2020, a faculdade de letras começou a preparar um projeto de Erasmus no sentido de ter possibilidades de intercâmbio também tanto para os professores como para alunos com a Arménia, Geórgia, Rússia. O projeto já foi submetido e já obtivemos respostas nesse sentido, mas com o vírus, o confinamento, ficou tudo adiado. Agora, claro, é uma área onde é preciso trabalhar mais. Outra coisa importante seria também a criação de um centro Camões na Arménia, já existe na Geórgia, com muito bons resultados, por isso seria muito interessante pensarmos nesse assunto e  até aí, nesse capítulo, já estávamos a dar os primeiros passos, mas, de novo, o vírus, o confinamento, esta situação toda um pouco estranha…

 

Como é que está a ser o desafio de ensinar uma língua nova em tempos de pandemia. O que é que mudou?

A faculdade de Letras adotou o modelo híbrido, haverá tanto aulas online como aulas presenciais. E como é que isso irá influenciar o ensino de uma língua? Na minha opinião, vai afetar muito… é muito importante o contacto pessoal. É muito importante nós praticarmos a língua em conjunto. No domínio online há muitas interrupções e um aprendiz que está pela primeira, a segunda vez na sala de aula e que precise de ouvir muito claramente os sons que eu estou a produzir, muitas vezes ainda em slow motion, e adquirir toda a componente fonética dessa língua…

 

É complicado…

É complicado nesse sentido, porque dificulta imenso. Por outro lado, como sabemos também é muito importante organizar trabalhos de grupo para que os alunos tenham oportunidade de conversar entre eles. Além disso, nós temos também uma abordagem que passa por convidar falantes nativos da língua arménia para partilharem o seu conhecimento ou simplesmente estarem presentes nas aulas e trocarem algumas palavras e só isso já ajuda imenso. Tudo isto irá, sem dúvida, influenciar o ensino da língua, mas também acho que o modelo que a faculdade adotou é o modelo mais conveniente a adotar nas circunstâncias em que estamos agora.

 

Alguma vez imaginou, Lia, que pudesse vir a ser professora de arménio em Lisboa?

Não, acho que não (risos)

 

E como surgiu a ideia de vir para Portugal no meio de tantos destinos?

Foi engano (risos)! E não foi erro meu. Na altura em que eu me candidatei ao programa de Erasmus foi para Milão, em Itália, mas a faculdade que coordenava o projeto para o qual eu estava a submeter a minha candidatura era a Universidade de Arquitetura de Lisboa, então quando recebi os resultados vi lá o meu nome, que tinha sido admitida para Erasmus, mas não para Milão, e sim, em Lisboa! É engraçado que os arménios e russos têm um provérbio que diz “ Tudo o que acontece é para o nosso bem.”

 

Arquitetura era então a sua área de estudo? Chegou a exercer?

Exerci, sim. Tanto na Arménia como em Portugal, mas o mercado de trabalho em arquitectura, em Portugal, é muito precário. Não gostei da experiência, de estar a trabalhar em Portugal nessa área e decidi dar uma pausa de algum tempo, até porque já estava apaixonada pela língua portuguesa e nesse período pensei, será que eu devo ser linguista e  por que não arriscar?

 

Ainda se lembra das primeiras palavras que aprendeu em português, da primeira conversa que manteve com alguém?

Antes de mais, quando soube que vinha para Lisboa, tentei estudar um bocado a língua, com ajuda de materiais disponíveis na internet, que são muito poucos, e na variedade brasileira, mas já sabia alguns números, algumas palavras de circunstância. Não me lembro das primeiras palavras que aprendi, mas lembro-me de uma situação engraçada. Eu sempre fui uma pessoa muito ativa, não sou envergonhada e tento descobrir tudo, então, lembro-me que no primeiro ou segundo dia em Lisboa, quando eu e duas amigas minhas, arménias, estávamos a ir para a faculdade acabámos por nos perder… então, encontrei uma senhora idosa e pensei em ir lá ter com ela para lhe perguntar o caminho certo e através de palavras soltas consegui falar com a senhora e descobrir o caminho, com uma pronúncia horrível, claro, na altura, mas o que é certo é que a senhora percebeu o que é que eu queria dizer e ajudou-nos a chegar ao sítio certo. As minhas amigas ficaram muito surpreendidas, afinal eu sabia falar português!

 

Como é que o ensino da língua arménia pode cativar os alunos? O que é possível trazer de mais original e puro da língua para as salas de aula?

O que eu estou a tentar fazer é tornar as nossas aulas o mais objectivas possível. Por exemplo, sem imersão linguística é impossível trazer todos os registos de linguagem de qualquer língua para a sala de aula, mas eu acho um pouco injusto ensinar apenas a língua que está nos manuais, a língua oficial. Até porque os meus alunos não têm como objectivo trabalhar para o Estado arménio e não precisam de dominar na perfeição aquele tipo de linguagem. Então, eu acho que é muito importante trazer todos esses registos de fala que existem para possibilitar uma maior abertura e facilitar o acesso à informação. Eu assumo que, para mim, o meu maior papel enquanto professora deve ser esse, ou seja, mostrar o que é que existe, explicar como funciona, como é que uma coisa se diferencia da outra ou está a ser influenciada e deixar ao critério dos alunos o espaço onde eles sentem mais à vontade e acredito que só assim é que podemos gostar do que estamos a fazer.

No primeiro ano do curso já tinha esse pensamento mas ainda não tinha ferramentas adequadas de ensino para conseguir fazer isso e notei que havia alunos que iam achando difícil, que pensavam que a professora estava a complicar e com toda a razão, porque a experiência faz tudo. Ao longo do tempo fui-me apercebendo que o ensino de uma língua não pode ser sequencial, mas simultâneo.

 

E para quando é que será possível um Centro Camões na Arménia?

Este ano acho que não será possível, até porque, no âmbito do projeto do meu doutoramento, já tinha intenção de começar as primeiras aulas de português para os primeiros níveis I e II, na Arménia, e já tínhamos combinado tudo com a faculdade de lá, mas no contexto atual, tendo em conta o encerramento de fronteiras, isso foi impossível e acabámos por cancelar tudo. Para 2021 sim, isso é uma possibilidade e as pessoas que quiserem fazer isso terão todo o meu apoio, pois é muito importante que a língua e cultura portuguesa, que é muito rica esteja também representada na Arménia e acessível às pessoas que querem conhecer outras realidades.

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